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June 20 Manuel Bandeira todo prosaBandeira, um ouvinte afinado do Brasil
A prosa da vida inteira de Manuel Bandeira
Ultimamente, o que mais tenho feito na vida é bestar. E com toda a fineza da conjugação e o bom humor do verbo preferido de Manuel Bandeira: bestar. E o melhor de tudo, bestando com a prosa viva e inteligente de Bandeira, o velho bardo que nos legou uma vida inteira de poesia, mas também uma prosa deliciosa de se ouvir, mesmo agora, vinda lá dos confins do século passado. E tenho bestado em todos os sentidos da palavra com Manuel. Assim, fico besta de pura admiração, de ver o quanto a prosa de Manu é instigante, divertida, bem-humorada e instrutiva; e ando bestando de vagabundear mesmo, indo ao léu das coisas, ao sabor do vento, sem compromisso e nem grandes preocupações na minha inquieta navegação pelo mundo da leitura. Digo: é uma das melhores coisas do mundo bestar com Manuel Bandeira. Um livro atrás do outro; vários livros ao mesmo tempo. Depois de reler a poesia de Bandeira, enveredei pela prosa, aquela que de tão boa não poderia mesmo ficar confinada aos arquivos dos velhos jornais. Penso com certa inveja boa na delícia dos leitores que acompanharam Manuel nas colunas dos jornais, assim como fiz com o goiano José J. Veiga, o nosso grande modernista, autor de A Hora dos Ruminantes, Sombras de Reis Barbudos e Os Cavalinhos de Platiplanto – que me fizeram cativa da arena das palavras encantadas de Veiga. Recortava com um prazer lúdico as crônicas de J. Veiga, publicadas no Diário da Manhã, jornal onde trabalhei no final da década de 80. Imagina escrever para o jornal e comentar algum detalhe das crônicas de Bandeira? E ele responder! Uau! Às vezes, o comentário de um leitor rendia crônicas impagáveis do poeta, como uma em que manifestava sua simpatia pela poesia concreta - ao contrário de Drummond que, categoricamente, torcia o nariz para os concretistas e dizia que nunca viu tanto esforço de teoria para justificar uma bobagem. Existem presentes que parecem cair do céu, de tão bom. Pensei que ia dar um trabalho danado escarafunchar em sebos Brasil afora reminiscências dessa prosa de Bandeira, como as crônicas de Província do Brasil – que tem também edição recente da Cosac & Naif. E já estava disposta a futricar uma enciclopédia à cata de um estudo de Manuel Bandeira sobre versificação em língua portuguesa. E não é que ganhei de presente há pouco mais de um ano Seleta de Prosa, Manuel Bandeira (Editora Nova Fronteira - 1997). Em 592 páginas o mundo “pensamenteado” de Manuel Bandeira equivale a um doutorado em artes, desses muito bem feito. Além de proporcionar uma viagem pela história da arte brasileira, o homem me aguçou uma vontade de ir beber na fonte de tanta gente interessante que perscrutou com sua inteligência e lanterninha esclarecedora daqueles detalhes capazes de iluminar uma vida. E Bandeira soube como ninguém abrir janelas para revelar em sua prosa cotidiana o Brasil de todas as artes. E com a consciência de que a função da crítica é ser esclarecedora, evitando tanto quanto possível o jargão de vanguarda. Não hesitou o nosso poeta em chamar a atenção do amigo Mário Pedrosa, que assinava uma seção de crítica no Jornal do Brasil, para que escrevesse para o homem da rua. Pedrosa ficou meio enfezado com o puxão de orelha, devolveu algumas ironias e Bandeira incisivo, no ponto nevrálgico, sem perder a linha do fino humor que afiava os dentes em Manuel. E como mordia elegantemente! E assim seguiu Bandeira o itinerário de uma prosa para ficar batucando na cabeça e na emoção do leitor, sem se afastar um milímetro sequer do rigor estético de profundo conhecedor de artes e da Língua Portuguesa. A prosa de Bandeira é essencial para se compreender melhor o Brasil, os nossos artistas, as obras que compõem o painel profundo de nossa alma e identidade. Sou meio compulsiva e baratinada para leituras. Começo vários livros ao mesmo tempo, misturando gêneros, autores e épocas. E vou seguindo ou recuando ao sabor da prosa que me agrada ou me inquieta mais. E nesse amontoado de livros Manuel Bandeira e Mário de Andrade têm lugares cativos. A primeira prosa de Bandeira me aliciou os ouvidos no Itinerário de Pasárgada, onde o nosso poeta de rosas e estrelas destrinchou com aquela delicadeza de imagens e pensamentos que conhecemos tão bem em sua poesia a vivência artística e o seu processo criativo. Que trilha! Ao percorrer lucidamente a memória de seu itinerário, raspando funduras da alma, Bandeira revela o mundo de sua criação poética e passeia amorosamente com sua lanterninha de observador e estudioso pelos fatos e personalidades que o influenciaram e ajudaram a construir o universo de um dos nossos maiores poetas de todos os tempos. Na trilha da prosa de Bandeira, reli, claro, o Itinerário, leitura fundamental para qualquer pessoa que se interesse não só por cultura, literatura, artes plásticas ou que tenha pretensão ao ofício da escrita, mas pelo Brasil. E Bandeira, sempre sintonizado com o homem da rua, revela o Brasil para os brasileiros. Esse é um legado da prosa de Bandeira que se incorpora ao nosso patrimônio. E está ao alcance da mão, nos livros. Depois de comichões – logo esquecidos – provocados pelo Itinerário de Pasárgada vieram os da correspondência de Mário de Andrade para Manuel Bandeira - e minha admiração cresceu com o trabalho criterioso do poeta na edição das cartas do amigo. E aquelas menções nas cartas sobre artigos e crônicas, como uma em que Bandeira comentava os poemas de Oneida Alvarenga - então aluna de Mário de Andrade e incentivada por ele a se dedicar à poesia -, me fustigaram o desejo de conhecer essa prosa pensamenteada do poeta. Cada crônica é uma aula de Brasil, porque o circunstancial em Bandeira é valioso. E Bandeira atualiza o Brasil para além do século em que viveu e produziu a sua obra. Arqueólogo da nossa alma mergulhou no fundo do poço dos nossos primórdios para resgatar das sombras das verdes matas a nossa produção artística. Depois de uma aula de Bandeira só me resta enfiar a viola no saco e humildemente procurar ler, o mais rápido possível, por exemplo, Gonçalves Dias. Que homem instigante foi Gonçalves Dias para o seu tempo e para o Brasil que o sucedeu no cordão do nosso ideário de uma arte nacional. O homem da rua pode até desconhecer um verso de Drummond, mas com certeza já ouviu e até recita trechos dos sonoros versos de Canção do Exílio: “Minha terra tem palmeiras/onde canta o sabiá”. A poesia atravessando de caravelas a corrente sanguínea das gerações para aportar mansamente nos nossos ouvidos cheios de ruídos da barulhenta e fragmentária “pós-modernidade”. Entre uma poesia e outra, os altos e baixos da saúde precária, o ofício de professor, a predileção comovente pelas janelas e pelas ruas, Bandeira estudava. E estudava muito. E estudava com dedicação e esmero metódico de historiador. Lia relatórios, documentos de sacristia, livros e mais livros de historiadores de outros tempos e de além-mar e escrevia cartas para estudiosos e bibliotecas mundo afora. E Bandeira não se contentava apenas com a pesquisa documental e livresca, ele viajava. Interessava-se por arquitetura, música, balé, pintura, violão, desenho, escultura e conversas do homem da rua. E o melhor de tudo, era um incansável operário da palavra. Lia um livro, escrevia sobre ele. Via um quadro, uma escultura, um desenho e lá ia Bandeira escrever as suas impressões sobre a obra e o artista. Não importava se um livro novo de Mário ou de Drummond, uma tela de Portinari, um mural na parede de um bar, um estudo sobre Mallarmé – e esbanja o seu francês! - e outro sobre Gonçalves Dias, um encadernador obscuro, um desenhista, o balé de Nijinski – ele viu deuses dançando! –, um encontro casual com Rosa. Bandeira interpretando o Brasil e de um jeito impossível da gente esquecer. Ao escrever sobre Guimarães Rosa, por exemplo, confessava que ainda não havia lido Grande Sertão, porque andavam dizendo que ele tinha inventado língua nova e que não gostava de língua nova. Mas depois se rendeu ao sertão de endoidecer de Guimarães. E falou das labutas de Rosa com texto para jornal e outras delícias e arremata com uma cantiga para acariciar a genialidade de Rosa: “Depois de ler você a gente fica com vontade de cantar aquela musiquinha... Eu sou pobre, pobre, pobre, rema, rema ré...” Quem é que esquece isso? E apesar dos pulmões comprometidos pela tísica (tuberculose), da qual felizmente se curou, o homem tinha fôlego e tenacidade. Nos Estudos Literários lá estão Apresentação da Poesia Brasileira, das produções dos catequistas da Companhia de Jesus aos modernistas, sem esquecer os poetas bissextos, aqueles que publicavam esporadicamente. E Bandeira investiga verso a verso a autoria das Cartas Chilenas (Tomás Antônio Gonzaga x Cláudio Manuel da Costa), chegando à conclusão em sua prova de estilo favorável a Gonzaga. Um magnífico estudo sobre Mário de Andrade, o animador da cultura nacional, e vários outros pontuais sobre questões recorrentes no autor de Macunaíma, como a questão da fala brasileira. Entre outros estudos de fôlego, só para citar alguns, versificação em língua portuguesa, os pintores holandeses no Brasil, Ouro Preto e um primoroso perfil de Aleijadinho. E Bandeira era um leitor muito atencioso, a ponto de descobrir deslizes em Proust. Ele também nos apresenta um genial artista pernambucano chamado Manuel Bandeira. Epa! E não é elogio em boca própria. Pelo contrário, Bandeira revela o trabalho de um xará, desenhista cujos traços são cobiçados pelo poeta – também amante do desenho. Bandeira chega a afirmar, forçando o traço, que trocaria toda a sua versalhada romântica por seis desenhos do outro Manuel. Nessa prosa de Bandeira, bairristamente, notei apenas uma incorreção histórica, quando menciona a capital de Goiás, na crônica O "Nosso" Saint-Hilaire, em que fala das viagens do naturalista francês pelo sertão brasileiro. Talvez, quem sabe, culpa da fonte de pesquisa (textos de Saint-Hilaire) ou pequeno lapso do poeta – coisas da pressa de quem escreve para jornal, tropeços de revisão -, lá está “Boa Vista, então capital de Goiás”, que nunca ouvi falar, quando na realidade queria se referir a Vila Boa de Goiás, antiga capital da Província e do Estado, hoje apenas Goiás – também conhecida como Goiás Velho –, patrimônio da humanidade. Nas suas prosaicas escrevinhações Bandeira debruça o olhar sobre a imensa janela do Brasil de seu tempo e de outros tempos e vai lustrando o espelho de nossas artes e artimanhas. Muito bom viajar com Bandeira pelas crônicas da Província do Brasil, ouvir a sua sensível Flauta de Papel perenizada nas páginas dos jornais e segui-lo nos vôos brasileiríssimos de Andorinha, Andorinha (publicação póstuma, organizada por Carlos Drummond de Andrade), com aquela vontade de um de seus versos batendo asas de andorinha no corpo da gente, passar a vida à toa, à toa, bestando, bestando com a riqueza nossa de sua prosa que também dá em poesia. Comments (2)
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