Cida's profileCaixinha de AlfazemaPhotosBlogListsMore Tools Help

Cida Almeida

Occupation
Location
Interests
Sou uma pessoa comum e rara. Adoro gente que pensa torto. Como Caetano Veloso também penso que gente é uma alegria diferente dasestrelas. Gosto de ser surpreendida por inteligências sensíveis.
Lists
Agradeço a sua visita!
Please wait...
Sorry, the comment you entered is too long. Please shorten it.
You didn't enter anything. Please try again.
Sorry, we can't add your comment right now. Please try again later.
To add a comment, you need permission from your parent. Ask for permission
Your parent has turned off comments.
Sorry, we can't delete your comment right now. Please try again later.
You've exceeded the maximum number of comments that can be left in one day. Please try again in 24 hours.
Your account has had the ability to leave comments disabled because our systems indicate that you may be spamming other users. If you believe that your account has been disabled in error please contact Windows Live support.
Complete the security check below to finish leaving your comment.
The characters you type in the security check must match the characters in the picture or audio.

Caixinha de Alfazema

Com os cheiros e matizes da minha alma, que às vezes gosta de se vestir de palavras
June 20

Manuel Bandeira todo prosa

 
 
1209076302_manuel_bandeira2[1]
 
Bandeira, um ouvinte afinado do Brasil
 
 
A prosa da vida inteira de Manuel Bandeira



Ultimamente, o que mais tenho feito na vida é bestar. E com toda a fineza da conjugação e o bom humor do verbo preferido de Manuel Bandeira: bestar. E o melhor de tudo, bestando com a prosa viva e inteligente de Bandeira, o velho bardo que nos legou uma vida inteira de poesia, mas também uma prosa deliciosa de se ouvir, mesmo agora, vinda lá dos confins do século passado.

E tenho bestado em todos os sentidos da palavra com Manuel. Assim, fico besta de pura admiração, de ver o quanto a prosa de Manu é instigante, divertida, bem-humorada e instrutiva; e ando bestando de vagabundear mesmo, indo ao léu das coisas, ao sabor do vento, sem compromisso e nem grandes preocupações na minha inquieta navegação pelo mundo da leitura. Digo: é uma das melhores coisas do mundo bestar com Manuel Bandeira. Um livro atrás do outro; vários livros ao mesmo tempo.

Depois de reler a poesia de Bandeira, enveredei pela prosa, aquela que de tão boa não poderia mesmo ficar confinada aos arquivos dos velhos jornais. Penso com certa inveja boa na delícia dos leitores que acompanharam Manuel nas colunas dos jornais, assim como fiz com o goiano José J. Veiga, o nosso grande modernista, autor de A Hora dos Ruminantes, Sombras de Reis Barbudos e Os Cavalinhos de Platiplanto – que me fizeram cativa da arena das palavras encantadas de Veiga. Recortava com um prazer lúdico as crônicas de J. Veiga, publicadas no Diário da Manhã, jornal onde trabalhei no final da década de 80. Imagina escrever para o jornal e comentar algum detalhe das crônicas de Bandeira? E ele responder! Uau! Às vezes, o comentário de um leitor rendia crônicas impagáveis do poeta, como uma em que manifestava sua simpatia pela poesia concreta - ao contrário de Drummond que, categoricamente, torcia o nariz para os concretistas e dizia que nunca viu tanto esforço de teoria para justificar uma bobagem.


Existem presentes que parecem cair do céu, de tão bom. Pensei que ia dar um trabalho danado escarafunchar em sebos Brasil afora reminiscências dessa prosa de Bandeira, como as crônicas de Província do Brasil – que tem também edição recente da Cosac & Naif. E já estava disposta a futricar uma enciclopédia à cata de um estudo de Manuel Bandeira sobre versificação em língua portuguesa. E não é que ganhei de presente há pouco mais de um ano Seleta de Prosa, Manuel Bandeira (Editora Nova Fronteira - 1997). Em 592 páginas o mundo “pensamenteado” de Manuel Bandeira equivale a um doutorado em artes, desses muito bem feito.

Além de proporcionar uma viagem pela história da arte brasileira, o homem me aguçou uma vontade de ir beber na fonte de tanta gente interessante que perscrutou com sua inteligência e lanterninha esclarecedora daqueles detalhes capazes de iluminar uma vida. E Bandeira soube como ninguém abrir janelas para revelar em sua prosa cotidiana o Brasil de todas as artes. E com a consciência de que a função da crítica é ser esclarecedora, evitando tanto quanto possível o jargão de vanguarda. Não hesitou o nosso poeta em chamar a atenção do amigo Mário Pedrosa, que assinava uma seção de crítica no Jornal do Brasil, para que escrevesse para o homem da rua. Pedrosa ficou meio enfezado com o puxão de orelha, devolveu algumas ironias e Bandeira incisivo, no ponto nevrálgico, sem perder a linha do fino humor que afiava os dentes em Manuel. E como mordia elegantemente!

E assim seguiu Bandeira o itinerário de uma prosa para ficar batucando na cabeça e na emoção do leitor, sem se afastar um milímetro sequer do rigor estético de profundo conhecedor de artes e da Língua Portuguesa. A prosa de Bandeira é essencial para se compreender melhor o Brasil, os nossos artistas, as obras que compõem o painel profundo de nossa alma e identidade.

Sou meio compulsiva e baratinada para leituras. Começo vários livros ao mesmo tempo, misturando gêneros, autores e épocas. E vou seguindo ou recuando ao sabor da prosa que me agrada ou me inquieta mais. E nesse amontoado de livros Manuel Bandeira e Mário de Andrade têm lugares cativos.

A primeira prosa de Bandeira me aliciou os ouvidos no Itinerário de Pasárgada, onde o nosso poeta de rosas e estrelas destrinchou com aquela delicadeza de imagens e pensamentos que conhecemos tão bem em sua poesia a vivência artística e o seu processo criativo. Que trilha! Ao percorrer lucidamente a memória de seu itinerário, raspando funduras da alma, Bandeira revela o mundo de sua criação poética e passeia amorosamente com sua lanterninha de observador e estudioso pelos fatos e personalidades que o influenciaram e ajudaram a construir o universo de um dos nossos maiores poetas de todos os tempos. Na trilha da prosa de Bandeira, reli, claro, o Itinerário, leitura fundamental para qualquer pessoa que se interesse não só por cultura, literatura, artes plásticas ou que tenha pretensão ao ofício da escrita, mas pelo Brasil.

E Bandeira, sempre sintonizado com o homem da rua, revela o Brasil para os brasileiros. Esse é um legado da prosa de Bandeira que se incorpora ao nosso patrimônio. E está ao alcance da mão, nos livros.


Depois de comichões – logo esquecidos – provocados pelo Itinerário de Pasárgada vieram os da correspondência de Mário de Andrade para Manuel Bandeira - e minha admiração cresceu com o trabalho criterioso do poeta na edição das cartas do amigo. E aquelas menções nas cartas sobre artigos e crônicas, como uma em que Bandeira comentava os poemas de Oneida Alvarenga - então aluna de Mário de Andrade e incentivada por ele a se dedicar à poesia -, me fustigaram o desejo de conhecer essa prosa pensamenteada do poeta.

Cada crônica é uma aula de Brasil, porque o circunstancial em Bandeira é valioso. E Bandeira atualiza o Brasil para além do século em que viveu e produziu a sua obra. Arqueólogo da nossa alma mergulhou no fundo do poço dos nossos primórdios para resgatar das sombras das verdes matas a nossa produção artística. Depois de uma aula de Bandeira só me resta enfiar a viola no saco e humildemente procurar ler, o mais rápido possível, por exemplo, Gonçalves Dias. Que homem instigante foi Gonçalves Dias para o seu tempo e para o Brasil que o sucedeu no cordão do nosso ideário de uma arte nacional. O homem da rua pode até desconhecer um verso de Drummond, mas com certeza já ouviu e até recita trechos dos sonoros versos de Canção do Exílio: “Minha terra tem palmeiras/onde canta o sabiá”. A poesia atravessando de caravelas a corrente sanguínea das gerações para aportar mansamente nos nossos ouvidos cheios de ruídos da barulhenta e fragmentária “pós-modernidade”.

Entre uma poesia e outra, os altos e baixos da saúde precária, o ofício de professor, a predileção comovente pelas janelas e pelas ruas, Bandeira estudava. E estudava muito. E estudava com dedicação e esmero metódico de historiador. Lia relatórios, documentos de sacristia, livros e mais livros de historiadores de outros tempos e de além-mar e escrevia cartas para estudiosos e bibliotecas mundo afora. E Bandeira não se contentava apenas com a pesquisa documental e livresca, ele viajava. Interessava-se por arquitetura, música, balé, pintura, violão, desenho, escultura e conversas do homem da rua.

E o melhor de tudo, era um incansável operário da palavra. Lia um livro, escrevia sobre ele. Via um quadro, uma escultura, um desenho e lá ia Bandeira escrever as suas impressões sobre a obra e o artista. Não importava se um livro novo de Mário ou de Drummond, uma tela de Portinari, um mural na parede de um bar, um estudo sobre Mallarmé – e esbanja o seu francês! - e outro sobre Gonçalves Dias, um encadernador obscuro, um desenhista, o balé de Nijinski – ele viu deuses dançando! –, um encontro casual com Rosa. Bandeira interpretando o Brasil e de um jeito impossível da gente esquecer.

Ao escrever sobre Guimarães Rosa, por exemplo, confessava que ainda não havia lido Grande Sertão, porque andavam dizendo que ele tinha inventado língua nova e que não gostava de língua nova. Mas depois se rendeu ao sertão de endoidecer de Guimarães. E falou das labutas de Rosa com texto para jornal e outras delícias e arremata com uma cantiga para acariciar a genialidade de Rosa: “Depois de ler você a gente fica com vontade de cantar aquela musiquinha... Eu sou pobre, pobre, pobre, rema, rema ré...” Quem é que esquece isso?

E apesar dos pulmões comprometidos pela tísica (tuberculose), da qual felizmente se curou, o homem tinha fôlego e tenacidade. Nos Estudos Literários lá estão Apresentação da Poesia Brasileira, das produções dos catequistas da Companhia de Jesus aos modernistas, sem esquecer os poetas bissextos, aqueles que publicavam esporadicamente. E Bandeira investiga verso a verso a autoria das Cartas Chilenas (Tomás Antônio Gonzaga x Cláudio Manuel da Costa), chegando à conclusão em sua prova de estilo favorável a Gonzaga. Um magnífico estudo sobre Mário de Andrade, o animador da cultura nacional, e vários outros pontuais sobre questões recorrentes no autor de Macunaíma, como a questão da fala brasileira. Entre outros estudos de fôlego, só para citar alguns, versificação em língua portuguesa, os pintores holandeses no Brasil, Ouro Preto e um primoroso perfil de Aleijadinho.

E Bandeira era um leitor muito atencioso, a ponto de descobrir deslizes em Proust. Ele também nos apresenta um genial artista pernambucano chamado Manuel Bandeira. Epa! E não é elogio em boca própria. Pelo contrário, Bandeira revela o trabalho de um xará, desenhista cujos traços são cobiçados pelo poeta – também amante do desenho. Bandeira chega a afirmar, forçando o traço, que trocaria toda a sua versalhada romântica por seis desenhos do outro Manuel.

Nessa prosa de Bandeira, bairristamente, notei apenas uma incorreção histórica, quando menciona a capital de Goiás, na crônica O "Nosso" Saint-Hilaire, em que fala das viagens do naturalista francês pelo sertão brasileiro. Talvez, quem sabe, culpa da fonte de pesquisa (textos de Saint-Hilaire) ou pequeno lapso do poeta – coisas da pressa de quem escreve para jornal, tropeços de revisão -, lá está “Boa Vista, então capital de Goiás”, que nunca ouvi falar, quando na realidade queria se referir a Vila Boa de Goiás, antiga capital da Província e do Estado, hoje apenas Goiás – também conhecida como Goiás Velho –, patrimônio da humanidade.

Nas suas prosaicas escrevinhações Bandeira debruça o olhar sobre a imensa janela do Brasil de seu tempo e de outros tempos e vai lustrando o espelho de nossas artes e artimanhas. Muito bom viajar com Bandeira pelas crônicas da Província do Brasil, ouvir a sua sensível Flauta de Papel perenizada nas páginas dos jornais e segui-lo nos vôos brasileiríssimos de Andorinha, Andorinha (publicação póstuma, organizada por Carlos Drummond de Andrade), com aquela vontade de um de seus versos batendo asas de andorinha no corpo da gente, passar a vida à toa, à toa, bestando, bestando com a riqueza nossa de sua prosa que também dá em poesia.
 
 
April 01

A cutucada essencial de Mário de Andrade

 
 

  MMM1.psd

Bandeira retrado por Portinari e Mário por Di

 

 

Mário

 

 

 

Mário de Andrade essencial

  

 

“(...) Com os docemente dos nanquins mais melancólicos

                     Brasil

                     Como será o Brasil?

                     MÁRIO DE ANDRADE ” .

     

 

A minha primeira vez com Mário de Andrade tinha um Manuel no meio. Um Manuel que seria de uma vida inteira. E Mário me veio como um sentimento poético, uma fineza de sensações, um quase de palavras dizendo muito além daquilo que eu poderia compreender naquele momento. Mário me tocou nas palavras de Manuel. E seguiu comigo, silenciosamente, profunda e amorosamente esquecido.

 

E naquele tempo ainda não havia para mim Macunaíma, Carlos, Fräulein, o narrador freudiano, Malazarte, a escrava poesia despida por Rimbaud, Anita, as paranóias e mistificações de Lobato que achou feio o que não era espelho, Portinari, Tarsila, Oswald, música do Brasil de dentro, mitos do Brasil das matas, nem a minha obsessão por palavras.

 

A minha segunda e definitiva vez com Mário de Andrade também tinha o mesmo Manuel no meio, abrindo o caminho das pedras. E que pedras encontrei nessa trilha nada batida! Voyeuse, segui a voz, melhor dizendo, as vozes de Mário e Manu, o lanterninha tinhoso no escurinho do Coração Perdido de MA. Mas o que conta agora, nesta história, é o Manuel da minha primeira vez com Mário, todo poesia. Não o Manuel toda prosa das cartas pensamenteadas de Mário de Andrade, uma outra história, que já contei um pouco aqui.

 

Profundamente, Mário de Andrade, o gigante serelepe da cultura nacional, o que se desdobrava em trezentos, trezentos e cinqüenta, em mil, morou comigo no encantamento primeiro das palavras pintadas, palavras de quase música de Manuel Bandeira. Das variações do nome que é uma tradução gigante de Brasil à ausência (res) sentida do amigo essencial, Mário de Andrade na eternidade da poesia de Manuel Bandeira.

 

E de tão lindo, profundo, dá vontade de chorar. E a gente sente uma saudade quase íntima de Mário de Andrade. Uma saudade quase. Esta foi a sensação provocada em mim pelo poema Variações sobre o nome de Mário de Andrade, de Manuel Bandeira (Mafuá do Malungo, em Estrela da Vida Inteira), que reli recentemente. E em especial pela imagem dos docemente dos nanquins mais melancólicos, o que valeu uma das minhas costumeiras anotações a lápis na borda do livro registrando a emoção da leitura. E essa imagem grudou em mim. Ou melhor, já estava grudada, como um pentimento.

 

Outro poema do Bandeira que se incorporou definitivamente à minha alma é A Mário de Andrade Ausente (Belo Belo, em Estrela da Vida Inteira): “Anunciaram que você morreu/ Meus olhos, meus ouvidos testemunham:/A alma profunda, não/ Por isso não sinto agora a sua falta”. Deste poema, desde a primeira vez que o li, há muitos anos, fiquei com uma frase rondando a minha cabeça como um mantra: pensando em Mário de Andrade, profundamente. As sensações deste poema me seqüestraram (eis aí uma expressão típica de Mário de Andrade, o ser seqüestrado por um sentimento, uma beleza, uma sensação, uma obra de arte...). E nos dois tempos desta leitura, o de muito antes e o de agora, Mário de Andrade me seqüestra alma, coração e razão.

 

E ando por aí, nas ruas tortas dos aflitos becos que se perdem dentro de mim; dos becos sem saída que me ensinam a voar, a criar e recriar espaços mágicos para a existência; pronta para os esbarrões, numa esquina qualquer do Brasil que é Mário, possibilidades de mundos. Enfim, com esse esbarrão-clarão no chão duro do Brasil sigo pensando em Mário de Andrade, profundamente. E mais profundamente ainda tocando e sendo tocada por suas palavras, por essa fome animicamente macunaímica que me deixa pra lá de inquieta, eloqüente e atrevida.

 

Profundamente, voltemos aos poemas do Manu.  

 

Penso que nada mais apropriado para começar uma conversa sobre Mário de Andrade do que percorrer a trilha calorosa da amizade que o uniu a Manuel Bandeira. Assim como Bandeira, eu me flagro pensando em Mário de Andrade, PROFUNDAMENTE, e em toda a inquietação que ele me faz mergulhar justamente nesse momento quando tudo parece à flor da pele, buscando materialidade e expressão, de um jeito meio dantesco... No meio do caminho desta vida, descubro Mário de Andrade e corro atrás de sua pedra fundamental. 

 

 

Talvez esse PROFUNDAMENTE Mário de Andrade em Manuel Bandeira tenha me levado a comprar, há muito tempo, dois livros que devorei (e tenho devorado tantos outros!) após anos de esquecimento na estante: Cartas a Manuel Bandeira, com prefácio e notas de Bandeira (Ediouro), e Portinari, Amico Mio, organização, introdução e notas de Annateresa Fabris (Editora Autores Associados). Estes livros nunca mais voltarão para o fundo confuso da minha estante.

 

E para resolvermos de vez a questão do profundamente que me seqüestrou no poema do Bandeira, justamente no ponto em que ele fala da falta de Mário que não sentia no momento: (...) Sei bem que ela virá/ Pela força persuasiva do tempo/ Virá súbito um dia, / Inadvertida para os demais. Por exemplo assim:/ À mesa conversarão de uma coisa e outra./ Uma palavra lançada à toa/ Baterá na franja dos lutos de sangue,/ alguém perguntará em que estou pensando,/ Sorrirei sem dizer que em você/ Profundamente (...). Talvez, ainda na trilha de Bandeira, eu esteja tateando: “(...) nas sombras mais fundas ficaram os docemente dos nanquins mais melancólicos (...)”.

 

Os traços, a tinta, o que vai amarelando por dentro, os docemente melancólicos da gente virando memória lírica, afetiva, enfim, os nossos lutos de sangue, saudade. Talvez no tempo daquela leitura eu já intuísse esse profundamente sem solução de pensar as pessoas que nos tocam e vão passando, como passaremos um dia por outras.

 

Mas essa não é uma saudade qualquer. É a falta que nos move no xadrez da vida e que vamos eternizando com tinta, barro, pedra, madeira, palavras, sons, imagens, os elementos que instigam à materialidade e expressão dessas funduras e desses profundamente em uma tentativa de ordenamento estético, arte - a suprema delícia do sofrimento da beleza.

 

E Manuel Bandeira via em Mário de Andrade uma tradução de Brasil. Um Brasil ávido de expressão de sua brasilidade, das suas profundezas. Em Mário de Andrade o caldo de todas as inquietações estéticas na busca de um espelho nas artes que refletisse a diversidade, profundidade e originalidade do Brasil, que desaguou como um rio impetuoso na Semana de Arte Moderna, dando início ao Movimento Modernista, do qual Mário é mais do que um ícone. Ele era a luz e o escuro; o que mergulhou fundo no poço de suas buscas e experiências estéticas, o que ouviu profundamente o Brasil e sua língua, e trouxe essa audição para o cerne de sua obra (até certo ponto subvertendo-a e eivando-a com os excessos de suas crenças) como uma ponte para o futuro – se alguém meter o dedo na ferida saberá que Mário de Andrade esteve fundo ali, antes de qualquer outro falar de reforma da Língua Portuguesa e de seu abrasileiramento; Mário, o que incomodou a todos, principalmente os amigos, o que não se conformou com a própria obra.

 

Escreveu Macunaíma em seis dias, mas a gestação do herói sem nenhum caráter foi um processo custoso, fruto de anos de pesquisa, cabeçadas na parede da incompreensão e uma teimosia que explica e confirma a verdade singular do escritor (o criador) – e não apenas do incentivador cultural –, o que abriu a machado a própria trilha e nela sulcou os seus passos como o visionário da terra nova e fértil, onde jorrava o leite e o mel do nosso espelho mais genuíno, aquele que aspira ao universal.

 

E a trilha de Mário de Andrade é libertadora. Ele se mostra por inteiro, não apenas na obra pronta e acabada, madura (Paulicéia Desvairada, Macunaíma, Remate de Males...), mas também na generosidade de nos legar o caminho do aprendiz Mário de Andrade, ao não condenar por completo a produção de gaveta que não resistiria a muitas leituras. E com o aval da sua própria crítica (que é bem ácida) brinda a posteridade com os frutos de sua inquietação de juventude.

 

E esta inquietação transformada em ponte, em comunicação além do seu tempo, é o que me coloca aqui, lápis afiado, a devorar a sua Obra Imatura: Há uma gôta de sangue em cada poema (poesia), Primeiro Andar (contos selecionados), A Escrava que não é Isaura (poética/ensaio). Esta Obra Imatura é o rótulo crítico de Mário de Andrade. É o começo da trilha. Já passei por Há uma gôta de sangue em cada poema, obra considerada inexpressiva, mas já com o prenúncio da desconcertante estética marioandradiana, um grito poético pacifista do escritor horrorizado com a I Guerra Mundial.

 

       O meu lápis maluquinho sublinhou construções interessantes: “(...) Onde as aldeias de sonoras ruas? / Onde os caminhos com arvoredos e framboezas? Tudo mudou! (...)”. E do mesmo poema (Exaltação da paz): “(...) honrar, com outros novos, / os monumentos velhos e grisalhos... (...)”. E ainda: “(...) por-lhe à janela as flores caprichosas (...)”.

 

E já que Manuel Bandeira foi o grande anfitrião desse meu encontro com Mário de Andrade, abrindo portas invisíveis e encantadas, quero o prosaico, a gostosura do pensamento marioandradiano. Na trilha da correspondência entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira, que começou em 1922 e se manteve ininterruptamente até a morte do autor de Macunaíma em 1945, sigo o itinerário da minha emoção e do meu lápis, o que me “seqüestrou” e encantou em Mário, o escritor serelepe (“escritor mais serelepe que eu nunca vi”), o esgrimista intelectual, o ouvinte paciente, o crítico ácido e apaixonado (devotou em grau máximo essa paixão, sem poupá-los da crítica, a Manuel Bandeira e Candido Portinari - e neste reconhecia a expressão criadora que materializava o seu pensamento e crença do que seria uma arte universalmente brasileira).

 

As cartas a Manuel Bandeira são um documentário precioso das inquietações que fundamentaram a obra e a vida de Mário de Andrade, revelando nuanças do movimento modernista pelo filtro de um dos seus maiores esteios. Na correspondência ele também vai traduzindo e recriando um pouco desse Brasil profundo, emergindo na arte. E a sensibilidade de Manuel foi extrema ao optar por deixar as cartas nuas e cruas, da forma como saíram da caneta e da máquina de escrever de Mário, comprada à prestação e carinhosamente batizada de Manuela, uma homenagem ao amigo poeta.

 

Senti falta do retorno, as cartas do Manuel para Mário, o que não compromete em nada o entendimento deste retrato em branco e preto, claro e escuro, de Mário de Andrade. O contraponto está nas notas de Manuel (210 objetivas e curtas notas explicativas).

 

Fica evidente que Manuel funcionou como alter ego de Mário, que se considerava um psicólogo e se gabava de conhecer Freud. Ele enveredava pela análise psicanalítica principalmente na crítica literária e de artes plásticas. Acreditava que a função do crítico era a de um descobridor. Chega a ser impiedoso ao traçar na intimidade de seu diálogo escrito com Manuel o perfil de Lasar Segall, que de pintor número um na preferência de Mário perdeu o posto depois do encantamento exercido por Portinari –amizade que depois teve lá a sua pitadinha de desencanto, não em relação ao artista, gênio criador, mas ao homem atrás dos pincéis.

 

Mário costumava dizer que não tinha crítico para a sua obra. A crítica era feita na base do “não gostei”, reclamava. Dizia também que gostava muito quando algum crítico, por mais equivocado que estivesse na percepção de Mário de Andrade, lhe revelava alguma coisa nova.

 

Nas cartas, difícil distinguir os “erros conscientes” dos “erros de ignorância”, a menos que iluminados pelo próprio Mário, que se delegou a missão de tentar sistematizar o português do Brasil. “Eu falo brasileiro”. Exageros à parte, ali encontramos um Mário divertido até mesmo com os seus erros de português. E aprendemos lições preciosas: os diminutivos brasileiros são mais carinhosos e agradáveis ao ouvido do que os lusitanos. Concordo, Mário: o bodinho tupiniquim é muito mais bonito que o bodezinho lusitano. E depois de você me sinto livre para nadar em riachinho...

 

E nado em busca do rio grande e das vertentes de sua obra, embalada por esses sons de nossa brasilidade mais funda, os rincões desencontrados do meu sertão-Brasil interiorzinho de mim; essas vastidões amazônicas das vitórias-régias da minha emoção percorrendo becos sedutores de sua escrita. E vou dobrando esquinas de desvairadas paulicéias. E vou por dentro, no mais fundo da voz, no mais verdadeiro tom da voz, no mais virgem dos matos, no mais mítico dos barros, no poço fundo e escuro de onde emergiu endiabrado Macunaíma, um clarão no meu espelho.

 

E por esses dias fecundos, marioandradianamente fecundos, com os docemente dos nanquins mais melancólicos da poesia de Bandeira, o Manu de todas as deliciosas horas, sigo pensando profundamente em Mário de Andrade, uma tradução gigante de Brasil.

 

 

 

Cida Almeida, Goiânia, nesse primeiro de abril de 2008 em que Mário de Andrade me cutuca dizendo: vai lá, termina o texto, conversa comigo, multiplica-te nessas pedrinhas de palavras da tua emoção de estar comigo nas entrelinhas do que salta, saltita e belisca, dolorido, dolorido; o beliscão essencial de Mário de Andrade.

 

February 21

A travessia do sertão de Hugo de Carvalho Ramos

 
 
 
capa1
HCR
 
 
 
Há leituras que escavam a gente. E escavam desde o brejo do barro mais fundo. Fui procurar o meu avô e a sua saga tropeira no fundo do poço da memória de um Brasil perdido, a sua travessia em definitivo do rio Paranaíba (divisa natural de Minas e Goiás), as águas do grande rio dividindo as Minas Gerais de sua alma espraiando-se nos sertões calejados de Goiás – onde tantas almas nossas fecundaram. Da plaqueta vermelha que ostentou o carro de boi do meu avô no passo duro da estrada (Carro de boi 108, Araguari, 1944), levantando o poeirão contínuo do sertão de Minas e Goiás – e queria tanto saber o nome de seus bois, para pronunciá-los poeticamente como num mantra de tocar a raiz funda da árvore de nossa história familiar! – ao livro de Hugo de Carvalho Ramos, Tropas e Boiadas. Da história de meu avô a Hugo de Carvalho Ramos, uma jornada dura que tem me instigado e mexido muito com as emoções e a imaginação. Da história de meu avô a Hugo de Carvalho Ramos, um baque seco, como se eu tivesse caído do lombo de um cavalo indomável, daqueles que meu avô amansava e que só respeitavam a sua autoridade incontestável.
 
E sigo justamente essa poeira vermelha da estrada do Brasil de dentro, poeira do sertão engolido pelo tempo, soterrado pelas máquinas que apagaram, não de todo, o rastro das boiadas. Ainda é uma cena comovente de se ver: a comitiva tangendo boiadas no concreto do asfalto.
 
Tempo desses, topei com duas comitivas de boiadeiros. Uma seguia rumo Norte, entre os municípios de Goianésia e Uruaçu. A outra, no Vale do Araguaia, próximo a Aruanã. Na paisagem, apenas uma mancha ou outra de cerrado preservado quebrando a monotonia das monoculturas de exportação a perder de vista, a soja e os canaviais num verde sem fim.
 
E a ternura de olhar a inusitada miragem da boiada em seu lento arrastar pelo asfalto e os boiadeiros ponteando a manada... Ohhh! Puxo as rédeas do olhar e empaco. Deixo a saga de meu avô no fecundo poço da memória. E sigo a galope o sertão pintado por Hugo de Carvalho Ramos no começo do século passado, aqueles idos de 1914 a 1917.
 
Acredito que, assim como eu na minha procura, Hugo foi dar no mesmo brejo fecundo do barro fundo, o da memória afetiva. No mundo do encantado sertão de Hugo de Carvalho encontro o sertão desbravado pelo meu avô. O mesmo além Paranaíba, histórias que ouvi, as trilhas abertas pelos cascos dos bois onde o traçado do caminho não beirava nem a intuição de estrada – as perdidas estradas do boi, a rota do comércio entre as gentes das bandas de cá e de lá, na mesma bacia das almas, pois é difícil encontrar um goiano que não tenha um pé remoto em Minas. Aqueles homens de sertão, no calejado das rédeas de domar animais, brabezas de gente e de bicho, um arcaico Brasil conduzido por fazendeiros que fundavam seus reinos com mãos de ferro, esticando cercas de arame farpado a perder de vista no cerradão goiano.
 
O coronelismo falando grosso por esses rincões perdidos de Deus, sacramentando a defesa de interesses financeiros e políticos em alianças que asseguravam o domínio das terras, os privilégios de classe e o poder da aristocracia na província. E o falar grosso era o império da força bruta, do chicote, a lei do 38, das brutalidades que sacramentavam os domínios do latifúndio. Sem contar ainda das espúrias relações de compadrio entre os donos de terra e os agregados, mascarando a exploração com todos os componentes da servidão de nossa herança escravocrata.
 
Fui procurar o meu avô no recorte literário daquele mundo por onde andou e desandou muito dos nossos genes em Tropas e Boiadas. Livro que vez ou outra entra na lista dos indicados para os vestibulares das universidades goianas, que (in) explicavelmente passou ao largo de minhas mãos e dos meus interesses nos tempos do colegial e da faculdade.
 
Nascido em 21 de maio de 1895, na Vila Boa de Goiás, antiga Capital da Província e do Estado, Hugo de Carvalho estudou no Rio de Janeiro, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais. Morreu jovem, aos 26 anos de idade, no dia 12 de maio de 1921. Mário de Andrade, num daqueles congressos de escritores, em 1942, reverenciou Tropas e Boiadas, única obra de Hugo, como leitura essencial para quem quisesse compreender o Brasil de dentro, o Brasil do Planalto Central, o Brasil que vive de costas para o mar.
 
Hugo de Carvalho e os nomes dos bois de meu avô, incógnitas que por esses dias duelam com a minha curiosidade, esgrimam com pensamentos seguindo fios de intuição, relampejos na memória, uma insistência querendo claridade, materialidade e entendimento. E a possibilidade de tocar o mundo nunca esteve tão fácil. Basta apenas um click. Abro a porteira do ciberespaço e com um click encontro no mundo virtual de tantas e confusas possibilidades as Tropas e Boiadas de Hugo de Carvalho Ramos, obra que este ano completou 90 anos e há décadas já é de domínio público. É uma obra referencial em matéria de regionalismo, muito citada em teses de mestrados e doutorados, mas pouco lida e estudada – penso eu.
 
Nas minhas pesquisas pela Internet encontrei apenas um livro de análise da obra, A Narrativa de Hugo de Carvalho Ramos, da professora Albertina Vicentini. Também encontrei alguns artigos. E o bom é que o exemplar de Tropas e Boiadas que comprei num sebo de Goiânia veio com um bônus: anotações de algum aplicado estudante que esmiuçou, didaticamente, a obra, destacando personagens, foco narrativo e os significados de expressões e nomes de coisas do universo trabalhoso dos tropeiros. Vislumbrei atrás deste estudante um professor mais aplicado ainda em montar um roteiro de leitura, desses que de tão enfadonho afastaria ao mais interessado dos leitores. E pior ainda, embarcando para o matadouro a imaginação do leitor e as possibilidades de interação emocional com a obra. Agradeço não ter sido embarcada naquele lote e hoje sonho a galopes com o encantado da narrativa de Hugo de Carvalho e escavo o meu desejo de penetrá-la nas camadas fundas.
 
Meio que esquecida da saga do meu avô, a escrita, a pintura e os personagens de Hugo têm mexido e remexido fundo. E me vem umas imagens, uns clarões no breu desse desejo de arqueologia. Estou raspando camadas, aguçando a escuta, guardando pistas, um punhado de palavras e imagens que sorrateiramente coloco sob as mangas, como cartas de um jogo. Embrenho-me pelo sertão pré-rosiano de Hugo e, impressionismo do meu olhar (talvez), escuto uma voz que quase assovia na varanda de Riobaldo - ilusionismo do escorregadio sertão, inda mais esse eivado de vestígios da memória.
 
E o sertão de Hugo de Carvalho arde como as queimadas na secura do cerradão, seguindo o rastilho inflamável do capim seco. Arde no meu desejo de compreender, mais do que decifrar. Difícil atravessar a cortina de silêncio sobre o homem Hugo de Carvalho, fato que talvez se explique pelo que teria de inexplicável um suicídio na província (Hugo enforcou-se com a escápula da rede em que costumava se deitar, segundo informação no prefácio da 6ª edição de Tropas e Boiadas, 1984, de Victor de Carvalho Ramos - irmão de Hugo -, texto datado de 1964). Notícia veiculada no jornal da província, segundo o irmão: morreu um bacharel.
 
E a figura de Hugo de Carvalho destoa completamente daquele mundo do sertão que pinta viva e detalhadamente em Tropas e Boiadas. E nunca vi tanta ternura na pintura de um mundo de incomensuráveis brutalidades. Histórias que percorro na firmeza de sua escrita, histórias que ainda ouço de memória nas narrativas do meu avô, como parte de uma trama do inconsciente coletivo. Histórias que se arrastaram sertão goiano adentro, tempo afora, desde as Minas Gerais. A inocência daquelas maldades, as forças hermogêneas, as grandes e definitivas travessias.
 
Há leituras, como disse, que escavam a gente. Definitivamente, sei que vou cavalgar com Hugo, o escritor que recria em mim a força norteadora do meu avô no coração do Planalto Central, um homem que também domava destinos. Cavalgar com Hugo, soltando as rédeas, sem as amarras das teorias literárias - na minha curiosidade inicial o que encontrei me encheu de insatisfação. Uns enveredam pela linguagem, trilha natural, mas não é por aí que Hugo me pegou. É que dentro do academicismo de sua escrita foram abrindo-se ao sabor da minha leitura em disparada umas clareiras, umas belezas indomáveis, uns êxtases espontâneos, e uns diabinhos dançando no meu peito, entre picadas de borrachudos.
 
E mais do que aquela cobra enrodilhada no peito daquele peão (personagem incidental em Gente da Gleba, uma novela onde entrevejo esboço e fôlego de um romance) que dormia profundo e sentia o peso dos diabinhos pulando na quentura do corpo largado ao sono no meio do mato à visão aflitiva da serpente. Aqueles suores, aqueles focos narrativos negaceando como uma cobra cega. E Expedito (Dito)? E aqui me calo, reservando-me para a proximidade visceral do seu sertão, do meu sertão, em que rumino a esperança de ouvir os nomes dos bois secretos de sua criação.
 
Vou cavalgar com Hugo por muito, mas muito tempo mesmo. Isso é certo. Tudo nele me impressionou, principalmente o que intui nas fotografias. Aquela figura de dândi, pele alvíssima, delicadíssimas mãos, silêncios prolongados no ver e no dizer, mas que têm se aninhado no meu peito como aquela serpente insidiosa no corpo de uma das suas personagens que trilham o sertão do nosso imaginário. E uma interlocução assim a gente não despreza, ainda mais vinda do fundo do poço, daquele barro fecundo viajando na perenidade do tempo, atualizando no meu interesse um desejo de ver além do que já vi. Uma interlocução assim não há como desprezar. Tem mais é que ir em frente. A ponte: a escuta. O guia: a voz. E não sou mais eu que segue o rastro da boiada da criação de Hugo. É ela que me escava, acordando uma necessidade de ver.
 
E vi de relampejo tanta coisa que pede metódica releitura. Que pinturas na paisagem do sertão de Hugo de Carvalho, o sertão de dentro e de fora do homem! Em alguns momentos chego a entrar na pintura, tamanha pulsação de cores e contrastes. Enquanto o sertão ainda estava sendo desbravado ele levanta sua voz contra o rastro de destruição. Ali, naquelas preciosas páginas de Tropas e Boiadas, uma voz de ecologista integra-se naturalmente à paisagem que percorre sem o estardalhaço do panfleto. E em tantos trechos a minuciosa e poética descrição da paisagem feita por Hugo acariciam os nossos sentidos como uma pintura em movimento, beirando cinema, um relicário com força de documentário da fauna, flora e gente do cerrado. Nunca mais esquecer a ternura do olhar de Hugo.
 
Ele faz um desvio profundo na trilha seguida por outros regionalistas que levavam o homem ao fundo do poço da degradação. Entendi lendo Hugo o que me desagradava tanto na literatura de Bernardo Élis, o nosso imortal. Era justamente esse olhar degradante, a falta de saídas, nenhuma zona de repouso, nenhuma ternura que resgatasse a nossa precária humanidade. Até hoje a lembrança da leitura do conto A Enxada de Bernardo Élis me provoca um desconforto estranho.
 
Em Hugo, não. A crueza mais visceral nos aprisiona o olhar pela ternura. É um escritor que não precisa do conjunto da obra ou mesmo da fórmula de um livro fechado em seu conceito para nos convencer do seu valor literário. Basta a leitura do mínimo e profundo conto Ninho de Periquitos para nos seqüestrar irremediavelmente a admiração pelo escritor. Ali, o amor de um pai que não quer aborrecer o filho adolescente justo no dia do aniversário e que mesmo contrário a mexer no curso da natureza, profana um ninho de periquitos. E há tantos símbolos, tantos arquétipos, tantas camadas e trilhas a percorrer nessa única e definitiva obra de Hugo...
 
E ainda falando de ternura, assim como Riobaldo se encantava com o canto dos pássaros, Hugo também afinava os ouvidos da gente. Ah, e alguém que nessa trilha encantatória do sertão escreve os “joões-conguinhos”, definitivamente, já imprimiu a poesia do seu olhar.


 
November 27

Menina pé de palavra

 
530big[1]
The dance - 1910 - Henri Matisse/OCAIW
 
 
 

Menina pé de palavra

   

Para reverenciar a surpresa das palavras de Juliaura Bauer

 

 

Ela chega num pé-de-vento

E não há cortina que resista

Guerreira em flor de Mina

... menina

Ela mina

Toda mina

Conta Mina

Conta o conto

Desconta o ponto

O poemeio

E o poemar de todos nós

Mina tudo

E mina toda

Mina Marte e mina arte

Ela chega pé de tudo

E já não há cortina

Em nada que havia

E hão passando

Passarinzinzim...

Pé-direito nas alturas

Sofreguidão

Essa queda por palavras

Ventania

Ela chega toda cor

Cores quentes

Laranja flamejante

Lâmina cortante verde

Cortantemente

Cantante, cantante...

Piruetas na ventania

No miolo vivo do redemoinho

Comichão comendo a gente

Palavras vermelhas, vermelhas

Pétalas derretendo carmim

Em mi, em mim, em mil

Sol arregalado

E já habitamos as profundezas incandescentes de Marte

Escorremos vermelim, vermelim

Lim, lim de trampolim

Estrepitosa mina a menina

Da mina rara e funda

Da palavra nova e saborosa

Pétalas vermelhinhas de dizer

O verbo fresco na ponta da atrevida língua

Mete o verbo e mete as caras

Estala e estilhaça

Tontura perfumosa

De palavras vertidas de ventanias

Endiabrada mina a menina

Palavras feitas na ventania

Palavras nuas na ventania

No cabelo do vento ela vai e vem

Vai indo... Vaindo... No cabelo solto do mundo

Indo mundo, endos mundos

Moendo tudo

Moenda Mina

Esse susto no vácuo da palavra

Susto surto de surpresa boa soprando

Janelinhas destrameladas

Ventania de menina

Juli, juli, não juro nada

Julipalavramento

Esse júbilo santificado de vida pensante

Entre os dentes a língua viva

A juba encantescente da menina

A fúria vermelha da leoa

Ruge rouge esses tons e sobre tons

Do vermelho intenso

Do vermelho tenso

Do vermelho denso

Do vermelho desce

Do vermelho tece

Do vermelho cresce

Do vermelho trama

Do vermelho boca

Do vermelho engole

Do vermelho sorve

Do vermelho inventa

Do vermelho venta

Do vermelho pétala

Do vermelho miragem

Do vermelho pulsa

Do vermelho catapulta

Do vermelho língua

Do vermelho palavras brotam

Buquê de flores auras

Baixos tons

Vento brando, brisa, aragem, sopro

Juliauramente jubilo abrindo as cortinas

Escancaro as janelas para a ventania

Da menina que mora muito além do dicionário

No começo ignorado de todos os verbetes

No fundo da caixa mágica das palavras

Palavras que constroem os mistérios

Palavras que destroçam os mistérios

Todos os mistérios do mundo

E brinca de inventar flores da língua

Flores de sínteses que me jogam para o escanteio das antíteses

E não atino com a tese nem que o verbo tussa

O enigma

Mas destravo a minha janela

E o verbo torce bem abaixo de todos os umbigos

E o cavalo sempre de outra cor puxa a marcha

No jardim das palavras ela é o trampolim

Para outras galáxias insondáveis naves fora de ninguém

Via Láctea de divertida gramática

Onde tudo é primeirim de inusitado comecim coçar cochicho

Burburinho só dela, só com ela os relampejos

Farfalhar das línguas ágeis

Deus deflagrado no ato da palavra nova

(O verbo, sempre o mistério do verbo primordial!)

Esculpida para o clarão do esbarrão com o outro

Inevitável

Há que amar o perigo da palavra navalha na carne dos sentidos.

E amamos.

Há que amar o diabim do verbo nascendim.

E amamos.

Inevitável

Esse vício de susto e adrenalina das palavras

Da menina que rasga cortinas e nos arrasta na ventania das palavras...

Aí, aproveito as delícias do desequilíbrio de bêbado nas alturas...

E me delicio na corda bamba das palavras

A queda livre na vertigem das palavras que jamais imaginaria

Palavras que acordam os meus sentidos

Palavras que subvertem os meus sentidos

Palavras que aguçam a minha fome de palavras

Palavras que forjam a fogo outros sentidos

Palavras que vão pintando em mim incandescências

Palavras que vão lambendo a labaredas

Palavras que vão sulcando a lavas

Palavras que vão a grotas fundas

Palavras elementares que correm por dentro

Palavras do leito arenoso do rio grande

Palavras que tocam os peixes cegos

Palavras que quedam nas pontas das pedras

Palavras que lavram a minha língua

Palavras que lavram a pedra da beleza

Palavras que escalavram a pedra grande

Palavras que rolam as pedrinhas das miudezas minhas

Palavras que lavam a minha alma

Palavras que me levam para o olho do furacão

Palavras que me devolvem à brisa leve

Na manhã em que caminho pelo poemar da menina

Com a manha das palavras que ela não esconde

E planta em cambalhotas no jardim das delícias da língua

No jardim da ventania onde tudo é permitido

Os pés descalços na grama tenra da palavra

Verdes esmeraldinhas de esperança na poesia

As delícias de se arrancar com as mãos de sonho

As pétalas da flor do verbo que se conjuga com bem-me-quer

Na ânsia das palavras que fazem em mim verão de andorinhas

No calor das palavras que minam quente da lavra da menina

E de janela aberta reverencio o trampolim

As divertidas acrobacias das palavras menininhas

E me contamino de ventania

Vermelhos da língua viva

A voraz língua da menina que chega e pede palavra

Colho as pétalas e as pedras

Atiro ao vento como quem semeia

Poemeio!

 

Cida Almeida - Goiânia, 17-10-2007.

 

September 04

Escrevo porque...

 
Escrever, o ato de viver o texto

 

 

Escrevo porque...

 

(Con)viver com palavras não é fácil, principalmente se a nossa necessidade de palavras for uma ânsia. Às vezes fica difícil saber se habitamos as palavras ou se são elas que nos habitam. Esse atrito cruel entre presença e fuga, controle e descontrole, compreensão e incompreensão. Mas o melhor de tudo é que, por mais que doa, e dói muito, a coisa toda é muito prazerosa. Penso que escrever é nos atrevermos, corajosamente, à arqueologia do espelho.

Hoje entendo claramente a razão da minha resistência à publicação, mesmo na Internet. Simplesmente medo, aversão às imperfeições do espelho, de confrontar com a lucidez cristalina da materialidade da palavra a obscuridade da intimidade mais funda aflorada na trama da nossa escrita, do nosso texto. Quando escrevemos nos tornamos um prato cheio para a voracidade do bom leitor, aquele que lê nas entrelinhas, nos silêncios, nos não-ditos, na intenção que se entortou no meio do caminho e contornou a pedra, a nossa fragilidade toda à flor da palavra que mais confirma quanto mais se nega...

Às vezes penso que foi bom eu ter feito um corte cirúrgico na minha escrita em favor da vida. Ao invés de escrever, decidi viver. Também deve haver em tudo isso uma pontinha de arrependimento de ter parado numa fase tão boa e produtiva. Por isso me chamou tanto a atenção o último livro do Moacyr Scliar (O Texto, Ou: A Vida), em que justamente refaz o caminho da sua escrita, esmiuçando o seu processo criativo. O cara só queria ser o melhor contador de estórias do Bom Fim. E uma vida por viver, entre as dores do corpo e as dores da alma, a escrita restauradora.

O texto ou a vida? A vida, sem dúvida. Mas a gente também descobre que a vida é a arte de melhorar o texto. É exatamente neste ponto em que me encontro. Tentando melhorar o texto da vida, sem aqueles hermetismos em que me negava tanto, em que criava espaços sagrados, em que as palavras eram muralhas, fortalezas para me guardar de mim, da vida, dos outros, sei lá de que monstros mais!

Então, esse meu reencontro com o gosto da palavra, com o gosto da existência também na força e beleza do verbo (que todos almejamos), vem com um sentido profundo de restauração de sentidos, mesmo na errância da travessia, com aquela necessidade de tocar o barro fundo da existência, mas sem grandes pretensões. Escrevo porque é um processo vital pra mim e porque me dá prazer.

E escrevo, sobretudo, para perder o medo, todos os medos. Escrevo para encontrar o outro do meu jeito mais quente. Escrevo para me expor e expor aquilo que é profunda e estranhamente desconhecido pra mim. Escrevo como quem crê em construções de pontes, ligando o que não se sabe a não sei quê... Mas construindo, por intuição e impulso...

Escrevo para tentar o mínimo de diálogo com o meu tempo, com a minha brevidade... Escrevo como quem racha lenha seca para atirar na fornalha onde arderá o próprio corpo...

Escrevo porque acredito que a alma é uma construção laboriosamente humana... Escrevo porque gosto da sensação do barro fresco entre os meus dedos... Escrevo para suavizar as dores que sinto... Escrevo porque não sei pintar, não levo o menor jeito para a música e porque me frustra profundamente a consciência de não saber esculpir... Minha ambição seria o dom de Camille Claudel, que tinha nas mãos o segredo das asas e a leveza amorosa do olhar de Deus na contemplação da criatura...

Escrevo para não endoidecer de tanto pensar. Definitivamente, não escrevo para ficar. Escrevo para repousar e sonhar com a mesma inspiração divina que levou o primeiro homem a rabiscar a pedra.

Escrevo numa ilusão de flor brotando na superfície da pedra, a inominável e a que é na dureza dos dias...

Escrevo para simplesmente ser.

Escrevo para esbarrar em Drummond, para ser cutucada desaforadamente por Mário de Andrade. E escrevo ainda para ranger meu humor desgostosamente satisfeito de seguir Bandeira.

Escrevo porque já tropecei demais. E descobri com Mário de Andrade que escrever é um soberbo tropeção!

Escrevo para embarcar clandestinamente com aquela preferência inarredável pelas portas secretas no transatlântico dos delírios opiáceos de Álvaro de Campos, conhecer por dentro a engrenagem e ser triturada pela grande máquina de fazer doido, e quem sabe visitar a aldeia de Alberto Caeiro e antes do fim da viagem escapulir ao ideário de arte de Ricardo Reis. E antes de abandonar o navio, que eu erre muito, já que sempre fui mesmo desorientada para espaços fechados, e bata atabalhoadamente na cabine atormentada de Bernardo Soares. E que prove o fel eterno do seu desassossego, uma gotinha que me estrague o mais leve contentamento e que eu siga contentemente descontente a escrever.

Escrevo por inveja boa de escalar a esculpida pedra dos grandes textos e vou cultivando em mim a delicada flor sintética das leituras, a que nunca murcha. Escrevo para ouvir a minha própria voz como uma condenação de Eco, a ninfa, no breu da caverna onde ainda rasteja a nossa precária humanidade.

Escrevo porque a vida é um acontecimento e fui alfabetizada com ouvido cativo de ouvir as estórias do meu pai. Escrevo para não perder o encanto da sua voz na minha alma. Escrevo para nunca esquecer a profundidade silenciosa do afeto da minha mãe.

Escrevo para repetir a gratuidade da infância, trocar brinquedos e pequenas maldades que não fazem mal a ninguém.

Escrevo para evaporar, para gastar o lápis, secar a tinta da caneta, ir até o fim do caderno e lá chegando colocar ponto final, mas por dentro mal contendo aquele desejo de cravar: e foram felizes para sempre.

Escrevo pensando que um dia ficarei esperta como Clarice que soube começar e terminar sua história, com uma primorosa lição: começou depois de algum inusitado começo não escrito com ponto e vírgula (;) e fez do fim um fim sem fim e a minha imaginação continua depois daqueles dois pontos (:), concretamente poéticos, uma carinha invertida zombando de mim.

Escrevo para desfiar um rosário de bobagens pensamenteadas. E porque acreditei na ternurinha angelical de Quintana sussurrando no meu ouvido que com minhas bobagens poderia fazer poesia.

Escrevo para ser instigada por quem desgoste do que escrevo e devolve o troco.

Escrevo para ter fé de que dias melhores virão...

Escrevo para ter vontade de atravessar a rua e caminhar anonimamente ao lado do rapaz que conta uma história que me interessa muito, como se fosse a coisa mais importante do mundo. Na confusão da cidade perdida os que conversam me ignoram e eu sigo a narrativa banal porque sou voyeuse de palavras.

Escrevo para habitar a tenda de Sherazade, para dominar a fúria de morte do sultão insano que mora comigo.

Escrevo para sonhar com o futuro. E porque Júlio Verne era mais esperto que os cientistas e sabia dar vida às coisas que aconteceriam no futuro do meu tempo, no prazeroso aqui e agora.

Escrevo porque a vida é um drama e eu preciso do sossego do cantinho espremido da página de um livro, mesmo que imaginário.

Escrevo porque qualquer página em branco, mesmo que seja a tela do computador, me dá uma fissura danada.

Escrevo porque tive medo de Freud. Fugi como o diabo dos divãs, mas inexplicavelmente me encantei com Jung e sigo o vagaroso carrossel do inconsciente coletivo. Desço e subo espirais da pedra e do sono, atravesso a seco o deserto de águas subterrâneas que nunca atinjo. E vou misteriosamente me recompondo nos fragmentos de textos, desentranhando as vozes do fundo do baú, as máscaras dos ermos-eus que tirei de tantos rostos e colei ao meu.

Escrevo porque Shakespeare e Machado já fizeram o universal. Esculpiram com palavras os grandes dilemas dos nossos ossos existenciais. Minguada e particularíssima, vou pela calçada na manhãzinha escassa do meu coração matutando minha escrita torta de pensamento torto na linha errada. Mas divinamente minha!

Escrevo porque gosto de Cecília, de Adélia, de Elisa, de Lygia, de Clarice, de Raquel, de Hilda, de Ana C., de Virgínia, das Emilys... E senti falta do poder da linha e da agulha naquelas lombadas douradas dos livros que vivem na minha biblioteca.

Escrevo porque em Platiplanto tenho lugar cativo na arquibancada da arena para o espetáculo dos cavalinhos de José J. Veiga. E foi tão bom chegar lá depois da estrada de tijolos amarelos e das maravilhas do mundo de Alice.

Escrevo porque achava lindo o texto do meu amigo Magno Medeiros e suas palavras me ensinaram a ouvir o camelo no infinito de música.

Escrevo porque um dia cavalguei com o enigmático dândi Hugo de Carvalho Ramos, que em tudo destoava do sertão, mas era um ser dos ermos e gerais nas trilhas batidas das tropas e boiadas que cruzavam o além Paranaíba. A mesma travessia do meu avô e de nossas almas. Escrevo porque Hugo continua pulando no meu peito com seus diabinhos ensandecidos para saber o nome dos meus bois.

Escrevo porque sou fã de Sherazade e a procuro em cada autor que leio.

Escrevo porque no meio do caminho havia um Rosa e uma travessia difícil para descobrir o sertão da minha alma.

Escrevo porque Riobaldo acordou em mim uma voz profunda, que veio do barro e aspira ao pó como destino, e me fez fechar, por vários anos, Grande Sertão: Veredas. Temi, depois daquela leitura, nunca mais escrever uma linha. Hoje, a janela é ampla e a cadeira predileta de Caeiro é o meu mais profano desejo na brisa da varanda de Riobaldo. Dias de Diadorim, sempre por perto, cego de amor e de ódio, um redemoinho na paisagem de dentro.

Escrevo porque tive um dia bom. Escrevo porque tive um dia ruim. Escrevo porque tive um dia mais ou menos. Escrevo pela força do hábito.

Escrevo essencialmente porque me dói escrever e também me dói não escrever. Escrevo descaradamente, sem inspiração, sem a menor crença na transpiração.

Escrevo para não me largar de mão. Escrevo para não deixar pra lá.

Escrevo porque o sexo é ruim. Escrevo porque o sexo é bom.

Escrevo porque você não me beija mais.

Escrevo porque você me trouxe flores.

Escrevo porque sou carente.

Escrevo porque sou osso duro de roer.

Escrevo porque gosto de seduzir.

Escrevo porque escuto mais do que devo e devo mais do que escrevo.

Escrevo porque alguém me liga e me desafia.

Escrevo com prazer redobrado porque já disseram que escrevo “bem demais para uma mulher”. Escrevo porque é melhor ouvir absurdos do que ser surda e poder revidar com o estilo da minha melhor escrita as bofetadas.

Escrevo porque não agüentava a pobreza de texto do meu primeiro namorado, que não sobreviveu ao primeiro texto, claro.

Escrevo porque vivi muitos amores platônicos. E todos tinham belíssimos textos.

Escrevo para tocar o mundo. Escrevo para futricar dores caladas. Escrevo para ouvir a voz dos calados.

Escrevo para transformar dor em flor.

Escrevo com a humildade da primeira vez em que peguei num lápis e rabisquei conscientemente a primeira letra.

Escrevo para rabiscar por cima, nunca apagar.

Escrevo para tentar me ver diferente.

Escrevo para que me vejam no traço comum das mulheres do mundo, de todas as mulheres do mundo.

Escrevo porque amei a voz de Jeanne Moreau. E desejei o meu melhor texto ganhando alma na interpretação dela.

Escrevo porque a escrita me liberta de mim.

Escrevo para perder a chave. E não quero encontrar nada.

Escrevo porque perdi muito tempo. Escrevo porque a eternidade pode estar ali depois da esquina. Escrevo porque não tenho certeza de nada. Escrevo porque não quero nada mesmo.

Escrevo pelo prazer de rabiscar. Escrevo porque amo encher gavetas e ver os papéis amarelecerem, porque adoro o amarelo das antiguidades, principalmente na superfície do papel.

Escrevo porque adorava receber cartas e mais ainda de respondê-las.

Escrevo porque o mundo é cheio de estímulos e eu sou um terminal nervoso.

Escrevo porque penso melhor escrevendo. Escrevo para ser prosaicamente um texto fácil.

Escrevo porque vivo melhor escrevendo. Escrevo sem nobreza de sentimentos. Jamais criaria uma teoria amorosa do texto, como fez Mário de Andrade. Nem penso na humanidade, muito menos no amor à humanidade. Às favas com as pretensões! Escrevo para manter a minha incoerência.

Escrevo para esquadrinhar o espelho, para quebrá-lo, triturá-lo em mil pedacinhos, e mesmo assim, me reconhecer inteira nas minúsculas partes.

Escrevo para amar melhor e me amar mais ao longo de um longo dia.

Escrevo para encontrar a sensualidade da noite e amanhecer o dia de bom humor.

Escrevo. Escrevo. Escrevo. Escavo. Escavo. Escavo. A pedra, a pedra, a pedra.

Escrevo porque a pedra existe, porque é impossível contorná-la e só consigo lidar com ela escrevendo.

Escrevo porque a pedra me habita e eu de tanto tremê-la não a temo mais.

Escrevo quase acreditando que posso transformar dor em flor.

Escrevo para ser varrida pelas palavras.

Escrevo para que tudo que vejo e sinto seja síntese da flor, a pétala e a dor.

Escrevo para que tudo que vejo e minto seja síntese da pedra, a pétala, a flor e a dor.

Escrevo na pedra e com a pedra.

Escrevo para a pedra, a minha antítese.

Escrevo e esqueço em igual medida, porque esqueço para escrever e escrevo para lembrar... A ciranda da pedra me devora.

É só o que sei. Escrevo! 

 

Cida Almeida – Goiânia, 28-08-2007. (http://alfazema13.spaces.live.com).

  

June 01

A PEDRA

 
 
 
Hand coming out of a tomb - Auguste Rodin
 
 

 

Ribanceira, a pedra

Ribanceira, o dia

Ribanceira, a peneira

Ribanceira:

Um homem garimpa

Na garupa do dia

Pedras miudinhas no vazio da peneira

Ribanceira!

Eu espreito e temo o rolar da pedra

No rolar das pedras do dia

A pedra grande

A inominável pedra

Na fundura da espera

Eu espreito e temo

Eu convivo

Na garupa dos dias

Esses galopes

A vida na peneira

dos dias, a pedra

No vazio da peneira

os dias, a pedra

Esse ofício de mãos

na ilusão da peneira

na dureza da pedra

o tear trançadinho das fibras

Às vezes inútil a peneira

Cato o precioso irreal da pedra

E tamborilo os vazios

No galope dos dias

Espreito o rolar da pedra

Na ribanceira do meu medo

A pedra inominável

A inarredável pedra.

 

Cida Almeida – Goiânia, 1-6-2007.

May 29

Palavras pintadas

 

 

Woman by window - Henri Matisse

 

Com as cores da alma 

 

Os melhores escritores que li na vida eram os que sabiam pintar com as palavras. Melhor: sabiam pintar e bordar com as palavras. Tinham na paleta mágica das palavras as cores da alma e o poder do encantamento da agulha – a nos cutucar e remendar por dentro.

 

Escritores de palavras... Passei por tantos... Escritores de imagens... Esses moram na minha alma, com seus quadros humanos sempre me cutucando no vai-e-vem do range rede, emoções e pensamentos. Como esquecer Ana Terra, Bibiana, Capitão Rodrigo, Clarissa, Vasco e o menino paralítico?

 

Impossível rebobinar a fita e apagar a voz profunda de Riobaldo - humanamente impossível. E... Nonada ecoa como o estampido de um tiro no sertão errante da minha alma. Mergulho no fundo do poço; escavo o barro com as unhas e mesmo assim a voz, as neblinas e uma saudade sem remédio de Diadorim... Riobaldo habita minha varanda lírica...

 

Atravesso insônias, visito cárceres, escrevo carta e a pintura em branco e preto de Vidas Secas desenhou dentro de mim uma paisagem retirante e esquálida, gracilianamente uma rachadura exposta... E vejo o homem, a mulher, o menino mais novo, o menino mais velho, a cachorra... Baleia! E um soldado amarelo. Memorável ter caminhado de pés descalços pela secura silenciosa da paisagem humana de Graciliano Ramos, também inesquecível (obras completas na minha estante)!

 

Às cinco da tarde, mesmo quando não penso, penso em Drummond. Desfio um colar de rezas, salmodrummondiando o anjo torto que mora comigo, na cidadezinha qualquer por onde vagueio e vou devagar... Com a obstinação das duas mãos e o sentimento do mundo... Toco seus seres? Não. Eles me tocam, como uma legião de anjos de mil faces, e me ensinam a conviver com a pedra no meio do caminho. E me comovo e me esqueço a contemplar e a sentir a mão que toca os meus ombros e ela não pesa mais que a mão de uma criança. E essa vontade de escrever, que me paralisa o trabalho, não vem de Itabira, mas tem tudo a ver com Drummond...

 

Abro a mão e salta uma estrela, depois uma rosa... Eis Bandeira pintando, pintando... Enquanto contemplo o que ele pintou, sinto o cheiro da tinta fresca de suas palavras me mandando ouvir um tango argentino... E me ensinando a amar Mário de Andrade, na pintura, com aqueles “docemente dos nanquins mais melancólicos”. Irremediável, vou recitando o que me possui a alma...

 

E pintam tão bem os bruxos! Machado e Baudelaire. Só para citar dois e nem visito as pessoas de Pessoa, um caso à parte, e os outros mágicos de além mar. E o quadro Capitu, oblíquo e dissimulado, como a fruta dentro da casca, me propondo enigmas. Cada vez que leio, um calafrio. E Bentinho saiu do teatro antes do fim de Otelo... Freud desconstruindo e Machado construindo, num tabuleiro de difícil xeque-mate. E ao vencedor, as batatas!

 

Baudelaire me chama à sua barraca, onde minuto antes entrara um pícaro. Prometia malabarismos de pequenos poemas em prosa e eu que já tinha passado pelas flores do mal... E pelas flores das flores do mal... Entro de mala e cuia. E me engano. E me encharco de umas tintas inimagináveis, só sentindo, sentindo. Eles me assaltam. Saio transmudada e nada será como antes. E ainda na borda da mesma lona vem a moça Isabel Câmara cantarolando: “Ninguém me ama/Ninguém me quer/Ninguém me chama/De Baudelaire”.

 

E os prazeres tortos das palavras sensíveis, nervo de dente de siso exposto ao gelo e ao vento na pintura movediça de Clarice. Ela entrou. Eles entraram. Deixei que se acomodassem no incômodo que me causaram. Depois tranquei a porta e engoli a chave. Vez em quando, sorrateiramente, rasgo o ventre, retiro a chave, abro a porta e convivo grávida de falas.

 

Pinturas hão passando dentro de mim, riachinhos espelhados, brilhantes seixos deslizam no cristal fininho de maio. E me toca tanto a pintura íntima e delicada da borboleta pousada Adélia Prado, o universo do seu quintal. Aquelas palavras de vizinhas saltando o muro, as memórias das pequenas epifanias, migalhas nobres do pão sagrado da poesia na mesa posta dos nossos dias. E salve Adélia, a formiguinha lava-pé pintando essas dores de saudade da minha mãe. Pintando, plantando uns canteirinhos fecundos de poesia e aromas raros.

 

Os pesados portões do paraíso não escondem o que o ácido Caio Fernando tatuou na camada mais profunda da minha pele... Ouço uns blues, sigo anjos decaídos por labirínticos corredores e esconderijos.  E o dragão me queima como uma carta nas mãos que eu desejasse muito ter escrito, que eu precisasse muito ter escrito, mas engoli as palavras certas e as palavras erradas. E ela me traduz num ponto enigmático que me escapa sempre entre o umbigo e a rua de dentro... E eu rezo para que seja doce, doce, doce, doce, doce, doce, doce, sete vezes, o mantra do dragão Caio F. Anjos de porre vagam pelas luzes da cidade que não iluminam e acedem a noite pintada nos meus corredores, que cheiram a éter e morte. Além do muro, Caio é um grafito na linha do meio que me divide em partes desiguais... Vou pra rua, vou pra vida... Vôo.

 

E tem Elisa, que ouvi cantar, que vi desnudar a poesia em gestos de atriz. Essa foi pintando e bordando em mim, do começo ao fim, jogando pro céu uma chuva prateada de palavras de tintas fortes... Amor, rotina, separação, saudade, legumes na geladeira, lua menina que menstrua ao léu das ruas, e a escrava-poesia muito mais nua sai para passear... E me leva junto na pincelada...

 

Ah, esses pintores e suas palavras-tintas mágicas! Tintas que têm as cores da alma. E a primeira pintura de palavras a gente nunca esquece. Assim, nunca esqueci Erico Verissimo (obras completas na estante para deleite meu!). Segui todos os quadros de Clarissa. Guardo como um tesouro (sem necessidade de releitura) a menina e sua cabeleira no balanço dos galhos do pessegueiro e o olhar de Amaro ainda me perturba dentro do quadro... O grito esganiçado, aquele passo em falso na escada, o papagaio, o segredo: Clarissaaa! E nunca deixei de seguir a menina: música ao longe, um lugar ao sol, imagens. Impossível esquecer o quadro: o minuano, Vasco na janela, o pátio, um cachorro seguindo uma fresta de sol. E o pintor que me seduziu assim com suas cores fundou continentes na minha alma ávida de povoamento. E vieram as cores de Ana Terra, Capitão Rodrigo, Bibiana...

 

Aí me vem um pensamento: se eu fosse escritor... Ah, se eu fosse escritor desejaria ser um pintor desses abusados. Dispensaria os pincéis, a química das tintas, o linho das telas, as estáticas molduras... Se eu fosse escritor cultivaria em mim o mais inventivo dos pintores. Ao invés de tintas, pintaria com palavras. Desejaria uma paleta com as cores da alma de Erico (e teria palavras-cores de ventania e de tempo), de Jorge (Palavras-cores de mar da Bahia, café, cacau, dendê, pimenta, cravo e canela), de Adélia (Palavras-cores de quintal, asas de borboleta, rezas salpicadas na cozinha), de Graciliano (Palavras-cores de terra seca, cacto, sol), de Guimarães (Palavras-cores de veredas, de sertão em toda parte, de travessia, de neblina, de buritizal, de olhos de Diadorim, de voz de Riobaldo, de demônio no oco do homem), de Bandeira (Palavras-cores de rosas e estrelas), de Drummond (Palavras-cores de mina e de Minas, sentimento do mundo, anjo torto e pedra, sempre pedra), de Machado e Baudelaire (Palavras-cores de tudo, de personagem, de cena, de olhar demolidor), de Clarice (Palavras-cores de avidez, de medo, de real moído, de prazeres que nunca terão nome); de Caio (Palavras-cores de ácido, de anjos tresloucados, de porres, de orgasmos, de duplos, de sentidos indistintos), de Elisa (Palavras-cores de incêndio, de palco, de luzes, de vida).

 

Ele chegou agora, do fundo mais fundo... De José Mauro de Vasconcelos não esqueceria jamais as palavras-tintas mágicas que me deram a chave do mundão de dentro, um coração de vidro multicolorido – que eu enchi de lágrimas preciosas; tintas que me arderam os olhos – e uma canoa encantada, de nome Rosinha... Até hoje ela me navega no fundo da pintura... Minha rosa, minha flor, minha nega, meu amor... Eu me confessaria frei abóbora. Ah, e tem Maria (José Dupré)... Éramos seis, retrato familiar, e até hoje a solidão de dona Lola me incomoda tanto... E na pintura: telhado cor de cinza solidão.

 

Se eu fosse... Se eu fosse... Queria muito um pouco de tudo isso, um pouco do segredo da magia de cada um deles, pouquinho mesmo que fosse. E faria do meu jeito palavras-cores só minhas e pintaria hoje um pintor com a febre do mundo, com a febre de Deus, mas que só tivesse palavras e páginas em branco... E a doce tortura das cores da alma.

 

 

Cida Almeida - Goiânia, 27-05-2007.

 

 

 

May 18

Carta a Mário de Andrade, o escritor serelepe que é uma tradução de Brasil

 

 

 

 

Carta a Mário de Andrade, o escritor serelepe que é uma tradução de Brasil

 

 

<Mário, Mário!

 

Por muito, mas muito tempo mesmo, você ficou esquecido entre tantos e confusos títulos na minha estante... Até que veio o baque, o estalo, o romper da casca. Mas essa é uma outra história que não convém relatar agora. E não vejo outra forma de contar da alegria do meu encontro com você do que por esta carta que não encontrará o seu destinatário. Mas isso não importa. Encontrei você dentro de um envelope em forma de livro.

Em pensar que esse envelope esteve tantas vezes em minhas mãos e sempre voltava para o fundo confuso da estante. Aliás, um envelope não, dois: no primeiro, que me atraiu mais, as suas cartas para Manuel Bandeira; no segundo, a sua correspondência para Candido Portinari, o seu pintor número um, aquele que desbancou Lasar Segall na sua preferência apaixonada. 

E todos os envelopes recheados de cartas que escreveu compulsivamente. Cartas pensamenteadas de Mário de Andrade. E como escreveu cartas o grande autor de Macunaíma (livro escrito em seis dias)! Penso que seria uma delícia você vivendo nos dias de hoje, com todas as facilidades desse admirável mundo novo da tecnologia em tempos de globalização – e você que já era um cara tão antenado... Quantos livros não publicariam os amigos e os não tão amigos assim com a sua profícua e instigante correspondência? E já são tantos dando conta dos segredos de sua robusta caixa postal.

Imagino você e sua curiosidade no tempo das facilidades do e-mail. Nada mais ilustrativo do que a sua citação de Platão na abertura de A escrava que não é Isaura: “Vida que não seja consagrada a procurar não vale a pena de ser vivida”. Você e suas idéias circulando pelo mundo a um click, sem o ritual dos envelopes, do selo, do carteiro, da espera e dos extravios...  A angustiante carta que corria o risco de nunca chegar ao seu destinatário... 

Que beleza, Mário!

Difícil, Mário, organizar as idéias e centrar-me na objetividade do relato, tamanha a emoção que provocou em mim esse encontro com a sua intimidade sem rodeios, sem papas na língua. Você tão você, com seus erros conscientes e os seus erros de ignorância, que deixavam todos tão confusos que ninguém sabia distinguir o que era estilo ou lapsos de fazer estremecer os puristas na sepultura, principalmente os da língua. A língua que queria brasileiríssima, sem a pompa lusitana. Concordo (em parte) com você. Os nossos diminutivos são mesmo uma gostosura. Carneirinho, sem dúvida, é infinitamente mais bonito que carneirozinho. Depois de você me sinto livre para nadar em riachinho... E achando lindo!

E no aguaceiro marioandradiano de suas cartas um legado precioso de memória que ultrapassa em muitas léguas o homem Mário de Andrade, porque sua intimidade pensamenteada tem a profundidade de Brasil. E você melhor do que ninguém a refletiu, de forma viva e cristalina, em sua obra literária, em sua obra de homem público, incentivador da cultura, pesquisador criterioso e incansável, um brasileiro serelepe e essencial. Um brasileiro metido até o pescoço no modernismo. E na sua intimidade pensamenteada um relicário de testemunho vivo daqueles anos fervidos da cultura nacional.

Mário, o brasileiro que não se furtou ao Brasil, que não deixou que “seqüestrassem” – palavra tão concretamente dura nos violentos dias de hoje e tão recorrente na sua fala metafórica – a sua coragem de ser Mário de Andrade, a ponto de, conscientemente, chegar a comprometer a sua obra.

Você era mesmo um sujeito cabeça-dura!

E Manuel Bandeira que nos diga de sua teimosia e obstinação e todos aqueles que foram vítimas de sua inteligência. Provocador nato, esgrimista intelectual de primeira grandeza, não arredava pé de seu orgulho duramente construído, sobretudo na convivência com a antropofagia das vaidades do seleto círculo dos modernistas.

Penso que rancores, desafetos, mágoas e algum sentimento de inadequação sempre sobram para quem não nasceu em berço de ouro e teve de palmilhar o barro da estrada do cidadão comum, mesmo sendo um sujeito ímpar. E uma frase sua revela muito dessas emaranhadas entrelinhas: “Não ando pago pelos outros. Um café que me paguem me ofende”.

Trabalhar duro, conviver com as desvantagens das diferenças e superá-las todas, e muitos dos seus contemporâneos, na capacidade de produção e na grandiosidade da obra.

Invejável, Mário, em todos os sentidos, a sua capacidade de trabalho. E principalmente a sua capacidade de escuta desse Brasil profundo, o Brasil que ficou mais transparente e carregado de identidade com a sua obra.

Um Brasil que é Mário de Andrade, um Brasil que se perde, se confunde e se contradiz, mas que emerge do fundo do poço com vitalidade titânica.  Senti em tantos momentos dessa viagem pela sua intimidade pensamenteada o abatimento moral e a depressão que lhe deixavam meio cinza, meio turvo e mais convicto ainda... E muito mais cabeça-dura. É, devia ter lá as suas fórmulas para sacudir a poeira e seguir em frente. 

Com certeza o trabalho e as múltiplas funções que exercia e as obrigações que se impunha eram um santo remédio para essas dores da alma. E justo você que se orgulhava de ser conhecedor de Freud e se considerava um psicólogo. E o intuitivo psicólogo Mário de Andrade deixou rastros fecundos na crítica literária e de artes plásticas.

Acredita que outro dia fiquei de queixo caído numa mega-livraria ao encontrar disponível na prateleira títulos de sua obra que imaginava fora de catálogo. E muitos outros referenciais. Além de ficar contente com o fato (esse Brasil ainda tem jeito!), confirmei também ali que você deve ter sido o escritor brasileiro que mais escreveu cartas. E tome cartas para ilustres conhecidos e desconhecidos...

De cara comprei um volume com três títulos, aquele que o crivo de sua autocrítica carimbou de Obra Imatura: Há uma gota de sangue em cada poema (título que me perseguiu uma adolescência inteira; achava lindo, dramático; reminiscências das aulas de literatura...); Primeiro andar (contos) e A escrava que não é Isaura (ensaio).

Passei fácil por Há uma gota de sangue e continuo em marcha lenta nos contos, mas caminhando... E fiquei de queixo caído, mais uma vez, e surpresa com a sua esgrima. Digo mesmo, encantada desde o início com o seu jeito de atingir o nervo exposto da polêmica. Adorei a sua parábola da verdade: “Cristo dizia: Sou a verdade. E tinha razão. Digo sempre: Sou minha verdade. E tenho razão”. E, claro, mais adjetivo, encantada com a sua visão da eterna escrava, aquela que Rimbaud deixou nua com um chute de mais de 20 anos em sua heterogênea (eterogénea na grafia de Mário) rouparia... Só que as impressões da leitura ficam pra (nada mais Mário de Andrade do que um pra coloquial, livre e solto na língua escrita) depois. Mas sinto-me tocada pelo legado generoso do caminho do aprendiz Mário de Andrade, irregular e magistral, mediano e soberbo, enfim, como todo mundo, com seus altos e baixos.

Bom demais também, Mário, ver ressurgir do fundo do poço do seu tempo e pelas suas mãos conscientes a musicalidade dos brasis perdidos dos próprios brasileiros graças ao obstinado trabalho do pesquisador interessado que sempre foi e cultivou.

Bem que podia ter se acomodado, contentado com menos. Aulas no conservatório de música, críticas para jornais, cartas para os amigos, sessões de leitura de poemas, um encantamento com um pintor aqui, outro encantamento maior acolá, Lasar Segall e Candido Portinari nos extremos de sua paixão... Ah, e tinha um Manuel no meio para temperar tudo, o seu alter ego, o seu sparring, a paixão de alma, a irmandade purificada das abertas confidências e todas as inconfidências também. E os seus livros para escrever e a incansável correspondência...

Mas não, você era um viciado em Brasil. Mário, aquele camarada de terno e chapéu, do dinheiro curto e sempre contado, percorrendo o Brasil, recolhendo os fragmentos da musicalidade que são parte do nosso tesouro, da nossa alma no caldeirão saboroso da cultura. E tome viagens... Norte, Nordeste, esses ermos de Brasil tão diferentes, tão palpitantes, tão desencontrados de si mesmos, tão fora do eixo (São Paulo/Rio?). Paulistano que nada! Você era mesmo é do tamanho do Brasil. E que continue desvairada a Paulicéia.

Com todos os xamãs, olho para esse caldeirão no qual meteu atrevidamente a sua colher de pau e me reconheço Macunaíma. E tenho apetite voraz.

É Mário, você me deixou obsessiva. Não, palavra forte. Melhor compulsiva. Depois de devorar a sua correspondência para Manuel Bandeira (Mário de Andrade - Cartas a Manuel Bandeira, coleção Ediouro/Notas e prefácio de Manuel Bandeira), letra miudinha, espaçamento menor ainda, e a sua ortografia toda diferente e os seus brados (Eu falo brasileiro!), e do livro quase ter desmanchado na minha mão – tive que pedir a um colega da gráfica para remendá-lo –, aí é que me veio o apetite de devorá-lo inteiro.

E não posso omitir que tropecei à beça nos tais erros conscientes e de ignorância. E me deliciei com as suas gargalhadas de si mesmo ao admitir a confusão, pois nem você sabia mais o que era um e outro. Portanto, mais difícil de ler impossível, mas não consegui despregar os olhos do livro e de rabiscá-lo. E tinha a lanterninha esclarecedora de Bandeira, com suas notas, sempre apontando aqui e ali.

Creio que essa leitura sem frescura de você acordou o Macunaíma endiabrado que existia dentro de mim, cheio de disparates, ávido de tudo, sempre por caminhos tortos, como o desta escrita.

Fiquei, sim, Mário, embasbacada com você, que me acertou como uma trombada, desmantelando tudo. Por caminhos tortos, diferentes daquela trilha batida (e incompreensível) da leitura (odiada) de Macunaíma no colegial, você me chega à idade madura com um cheiro absoluto de intimidade, de verdade, a verdade do homem, as dúvidas todas, as idiossincrasias, aqueles fios do caminho do aprendiz que foi juntando para construir Mário de Andrade, o escritor serelepe, como você gostava de dizer.

Mas como eu ia tropeçando – aprendo com você que escrever é um soberbo tropeção! –, fiquei ávida de você como alguém que de repente se vê num espelho pela primeira vez. Você cutucou alguma coisa dentro de mim e cutucou com vara curta, quase que me exigindo a ousadia do ataque, a coragem da exposição, da fragmentação, da cara a tapa... É Mário, você me espetou sem dó nem piedade. E me encheu de uns apetites diferentes, vorazes, ferozes...

E mergulhei nas linhas e entrelinhas da sua correspondência com o velho Manú, aquele que lhe agüentava com complacência de um deus indiano... E Manú agüentava e decifrava a sua tortuosa e difícil escrita e pegava você no flagra das teses mais descabidas, mas enchia de orgulho a bola da sua criação. Penso que nem Manuela (a máquina de escrever comprada a crediário e batizada para homenagear Bandeira) aliviou o suplício.

Felizmente, Mário, você encontrou em Manuel mais do que o fiel amigo confidente, um espelho que ajudou você a refletir e se refletir do modo mais transparente na moldura de um tempo eivado de futuro pelo viés da sua obra. É nesse saboroso diálogo com Manuel Bandeira que vemos Mário por inteiro e mais do que Mário um retrato amplificado de Brasil que ecoa nos tempos de hoje, vertiginosamente... Há que se agradecer por extensão a Manuel por ter deixado você inteirinho da Silva, ou melhor, Andradiano mesmo, com sua ortografia personalíssima. Tanto “milhor” pra gente na labuta de conhecer você.

Mário, o mais modernista dos modernistas de 1922, ainda hoje o moderníssimo Mário de Andrade, que legou ao Brasil a materialidade de sua alma, a alma musical de seu povo e de sua fala.

E a consciência é um oráculo tão obscuro, como você mesmo pontuou. Assim como você era apaixonado por sua verdade porque ela era apaixonante, talvez esta mesma paixão febril em sua vida e obra seja o que mais me toca e encanta agora. E ando em círculos com você e vou cada vez mais (pro) fundo marioandradiano, escutando a sua voz, suas dúvidas, suas tentativas, seus erros e encantando-me com o acerto final de tudo isso.

E como estou no círculo de sua escrita e o precioso envelope já se desmanchando novamente em minhas mãos, aproveito a íntegra de um pensamento seu para sair da enrascada dessa carta: “Imagino que entre a consciência e a subconsciência inda deve de ter um terreninho safado em que grandes brigas se travam. Ás vezes escuto ecos dessa briga. Porêm me aturdo com leituras e pensamentos noutras coisas...” Assim, entre outras leituras e interesses, sempre volto a Mário de Andrade.

Bem, antes que eu perca completamente a oportunidade de colocar ponto final no rumo absurdo dessa carta, nesse desgoverno de idéias e sensações, continuarei com a firme determinação marioandradiana de travar essa gloriosa batalha com a sua obra... E me divertindo muito... Talvez retome o assunto, de forma mais ordenada, em outras cartas, ao sabor de suas provocações.

 

Um abraço danado de afetuoso.

 

P.S.: Favor não devolver ao remetente.

May 14

A palavra de mover montanha

 

 

Paul Klee – Na cidade do sonho

 

Toco na poeira das ruas

imagens cruas

Toco na poeira do tempo

imagens nuas

Na poeira das ruas

imagens cruas me tocam

Na poeira do tempo

palavras nuas me engastam

Na poeira de tudo

o pó das ruas

Na poeira de mim

o pó purificado das cinzas

frágil escultura no sopro tortuoso de Deus

O pó na perenidade do tempo

das minhas palavras ao vento

que movem, de leve, muito leve

a dureza inominável da montanha.

 

 

Cida Almeida – Goiânia, 14-5-2007 (Fragmento de poema recolhido na ventania das ruas).

May 09

Cacos para uma tarde

 

   

  

Essa tarde de maio cerzindo agosto vermelho que teima em não desbotar na antiguidade dos passos... Sumindo, sumindo... Na areia virgem dos dias desertos, essa dor de pele e pedra... Essa dor profunda de esquecimento... Tardezinha puída na moenda das minhas retinas... Vejo tudo em fragmento... Cacos para lembrar meu esquecimento... Maio, nunca mais a ilusão azul boiando dentro de um cristal... Nunca mais... E ainda sigo pelas tardes, empacotando janeiros como o balconista da loja em frente.

 

Cida Almeida – Goiânia, 9 de maio de 2007.

 

February 23

Das noites que não dormi na minha cama

 

Biblis, 1884/William-Adolphe Bouguereau
 

 

Das noites que não dormi na minha cama

E que não amarfanhei a intimidade do sempre igual

A ser

Desejos dos dias vindo e indo

E acreditando a mesma conta

A ver

O areal, os passos, os pássaros, os medos dentro do saco

Os vôos e os vãos, recortes do ser e do haver no porvir e no ido

A ter

Adiante, avante, ao chão, ao mar, ao ar

As possibilidades e impulsividades

A verter

A essência passando

A alma a limpo no liso escorregadio da vida

A conter

A dor finíssima do ser

Na peneira do viver

E do deixar de ser

A fogueira extinta

A reverter

A roda do mundo

Gira

Giro

Gira-girou.

Cida Almeida (http://alfazema13.spaces.live.com)

Goiânia, 23-2-2007

February 12

Sonho

 
 
 

Silêncio.

                   .

                            .

                                      .

 

(Acomodem-se todos os ruídos do mundo)

                                                                                     .       

                                                                                              .

                                                                                                       .

Serenize-se o mundo

                                      .

                                               .

                                                        .

 

Que os olhos contemplem

Com o coração Extático

O gozo divino de ver

O sonho alado da lagarta

                                               .

                                                        .

                                                                  .

Que os olhos sejam preces

A luz de joelhos

Na profunda harmonia de Deus

O vir a ser

O sonho leve

O parir das asas

O vôo breve

A beleza infinda

O firmamento

O risco

A imensidão azul

O livre ventre

O finito eterno

O SER

                                      .

                                               .

                                                        .

 

  ***

Olho é olho. E o José Afonso, fotógrafo tarimbado e sensível, tem um olho que é brincadeira. Hoje ele me mandou a foto por e-mail, como um presente. Fiquei de boca aberta, um tempão. E já veio com o título, Sonho. Deu vontade de rezar, fazer uma prece silenciosa, de joelhos, diante de tanta beleza e sensibilidade. Essa é uma imagem que entra na gente e engrandece a nossa alma. Coloquei umas palavras, todas dispensáveis. A imagem me remeteu a Sonhos de uma Noite de Verão... Mas deixa a imagem do Zé falar ou aninhar-se silenciosamente num canto quente do nosso ser e sonhar...

 

 

January 25

À sombra do sertão

Varanda lírica

 

“Imortal é o que é do sofrido; tudo abaixo daí, é póstumo”.

Guimarães Rosa

 

 

Outro dia li o texto de um menino na internet que falava do quanto o exercício da escrita tinha aberto os canais de sua sensibilidade. E penso em canais de rio, os subterrâneos da alma que afloram à luz de uma terra fértil. Ele usou a expressão sensibilidade construída. E coincidiu que naquele dia estava justamente imbricada com idéias e pensamentos para a criação de um espaço virtual chamado Na varanda de Riobaldo título de um texto que já publiquei aqui na Bula. E no embalo dessas idéias até propus ao Carlos Willian construir um puxadinho dessa varanda aqui, uma varanda lírica onde pudéssemos cavaquear com e sobre autores e personagens que têm lugar cativo na nossa alma e memória emocional. Quem sabe?

Também numa conversa (virtual) com a minha amiga Maria Emília – que vive em estado de alumbramento com Clarice Lispector –, ela comentou que gosta do que considera o meu eu lírico. E pensamento é mesmo como escama de peixe, uns enroscam-se nos outros até formar uma estrutura que torna possível a travessia para o tangível. Fisgada pela conversa sobre o “Eu” lírico e pela alusão à sensibilidade construída do internauta Eduardo Oliveira, passei novamente pela varanda de Riobaldo e...

Meu Deus! Quer expressão maior para o nosso “Eu” lírico (profundo), sensibilidade construída, do que o inquietante e instigante Riobaldo?  Assumindo mesmo a força de um arquétipo, um narrador universal – uma voz imemorial que nos chama desde o poço mais fundo da eterna caverna, mas com uma força persuasiva de Ariadne, tirando-nos do labirinto ou pelo menos nos reconduzindo à luz de novos sentidos, espelhos e mistérios, com o fio da palavra. E palavra lírica, que reconfigura a nossa alma, no que ela tem de encantamento e revelação. E o próprio Guimarães Rosa exprimiu o poder dessa magia da palavra em uma afirmação carregada de lirismo: “Escrevendo sempre descubro um novo pedaço de infinito”.

E em Riobaldo a trindade mágica: narrador, personagem, interlocutor, esticados na tensão do mesmo fio do eterno sertão da humanidade, as nossas dúvidas e incertezas. E gosto imensamente de uma outra frase do Guimarães para a definição desse sertão da alma: “No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por ali os anjos e o diabo ainda manuseiam a língua”.

Ali, naquela varanda de Riobaldo, o homem universal nascido das profundezas do sertão palpável e do intangível que se apossou da alma de Guimarães e com todo o lirismo, poesia e genialidade de que a nossa humanidade é capaz, converteu-se naquelas funduras de palavras, escavando minas e grotões, e reacendendo a fogueira de uma voz interior de força inquebrantável. É esse fenomenal e absurdo diálogo interior que torna possível o ato da criação, a busca de materialidade e expressão para essa perplexidade traduzida em ordenamento estético, em beleza poética, o que desemboca na divina trindade: autor, obra, público – construindo sensibilidades, belezas e sentidos, novos pedaços de infinito, se revelando e se explicando mutuamente, num espelho vivo.

Crocodilo metafísico – Em qualquer tempo, espaço ou contexto, Riobaldo vai abrir caminho até a explicação e não explicação do homem no Grande Sertão: Veredas da nossa alma. Um espelho lírico e indomável. Vai seduzir e nos fazer sonhar e buscar um fio, por mais tênue que seja, da meada do nosso existir, com ou sem a bravata de Deus no labirinto da caverna de onde nunca saímos.

E o velho Chico, real e imaginário, fluindo na eternidade das águas, margeando uma veredinha para dentro da gente até a imensidão das águas grandes e desconhecidas. E isso, definitivamente, pois ninguém lê Grande Sertão: Veredas impunemente. É entrar e sair transformado, uma outra coisa, um outro estado de alma.

E a força de Riobaldo, não com as armas do jagunço, o ofício, mas com as palavras – as palavras líricas e fundas de humanidade de Rosa – faz ruir todas as barreiras, até mesmo a mais engenhosa, que é a da língua. Caetano cantou que só é possível filosofar em alemão. Com a devida licença poética aos grandes pensadores da pátria de Goethe, escorada numa história que ouvi da boca de Adélia Prado, aqui em Goiânia, Riobaldo arrastou para a sua varanda um alemão que deixou seu país e mudou-se para o Brasil com o intuito de aprender português para ler Grande Sertão na língua daquele jagunço que, depois de toda labuta das armas, já possuindo os prazos, vivia no range rede a especular idéias e encantar a gente. Essas de água batendo no barranco, engolindo cachoeiras, naquela interlocução com todos nós – os que passaram, os que estão passando e os que hão de vir. O diabo existe e não existe?

Entre a prosa que recria o seu mundo para uma compreensão necessária de se apossar do vivido – o que só a arte perpetua – e o nosso universo sempre em chamas – e chamamentos –, e a saudade inconformada de Diadorim (a poesia do mundo de Riobaldo), o nosso homem na varanda atira ao vento do sertão espraiado em longínquos e fugidios horizontes de dentro e de fora as nossas dúvidas que se desdobram em verdades filosóficas – muitas de revelação sequer arranhadas ainda...

“Quem mói no asp’ro, não fantaseia”, enrijece Riobaldo, explicando aquele mundo de antes, a labuta sem a peneira do reviver nas especulações, idéias e emoções desentranhadas. Sempre em sua varanda, o sertão à sombra de Diadorim. Momentos de refrigério e vereda, intervalo, interlúdio, o coração entranhado, Diadorim, a neblina, mas também a poesia da vida – e poesia sem neblina é mesmo uma impossibilidade sem essas camadas fundas que pedem raspagem, penetração. E como disse Guimarães: “Imortal é o que é do sofrido; tudo abaixo daí, é póstumo”. Ele, o que escrevendo vivia no infinito e queria ser um crocodilo, o mestre da metafísica, vivendo nas águas do São Francisco, porque amava os grandes rios, que considerava profundos como a alma de um homem.

Mesmo no mais assombrado desvão dos nossos demônios e infernos, as asperezas, as brabezas, as intrigas, as violências, a encruzilhada entre o bem e o mal, o arbítrio, Deus e o diabo se confrontando no profundo da gente, o tempo todo, um insuspeito anseio de absolvição – um mundo, se Deus existe, e já o matamos; outro mundo, se Deus não existe, e nada nos redimi ou explica. O homem, o único ser que traz a idéia de Deus (Descartes), crendo ou não, espichando ali no sempre sendo do sertão de Riobaldo o fio do labiríntico enredo da humanidade, o reverso pactário – “O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio essas melancolias”.

E deixemos a filosofia de lado e voltemos às inquietações de Riobaldo na mestria de Guimarães. Que sensibilidades construídas naquelas andanças de médico pelo sertão de Minas, apalpando dores do corpo e da alma sertaneja, ouvindo, anotando, criando e recriando o encanto visível e invisível do sertão – uma língua antiga e uma língua nova numa outra cheia de sonoridades, sentidos, pausas e surpresas da inventividade –, esse sertão recriado do tamanho do universo onde com um mirar fundo em um espelho mais fundo ainda encontr amos a face humana e diversa da beleza; o sertão, o locus de um imaginário onde estamos todos nós, aquele alemão solitário em busca de uma vereda – e terá encontrado dentro da varanda de Riobaldo vereda mais funda que a luso-brasileira, uma fonte nova de espantos que nos torna grandes e pequenos diante da imensidão criativa de Guimarães Rosa – que acreditava já ter vivido antes e que para estas duas vidas um léxico só não era suficiente; os pensadores que se desencontraram de Guimarães no tempo e no espaço, mas trilharam a mesma vereda estreita e funda rompendo a caverna com as mesmas dúvidas – a inquietude original de espírito de Riobaldo, o homem e sua solidão. Enfim, todos os que foram tocados pela graça da poesia e da palavra, ali, naquele vai-e-vem da rede-pensamento de Riobaldo, que tem umas ternuras, umas delicadezas, um estado de nobreza desde o princípio da pedra bruta rolando na barranca do São Francisco.

E essa ternura, essa convivência, o que terá afetado em Diadorim, mesmo no contraditório do sentimento do valente Reinaldo – o que os olhos terão dito no âmago dessa ternura entre aqueles homens de sertão na pele, no jeito, no ofício e na alma, onde o diabo é às claras, às brutas, e Deus no atraiçoado, naquele imbricado difícil de desentranhar? Penso como Bandeira, que Guimarães devia ter deixado Diadorim homem até o fim, para funduras mais inexplicáveis ainda perscrutar, sem dar alívio ao contraditório do sentimento de Riobaldo (ou nosso).

 

A primeira vez com Riobaldo - Em pensar que a primeira vez que escutei Riobaldo foi às cegas – um confronto às brutas ao difícil de difícel da linguagem do universo de Guimarães. Prova de vestibular, discursiva, e o sertão chega de armas em punho (onde até Deus tem de ir armado) e eu ainda desarmada no assombro da ignorância de me ver diante de tamanha e incompreensível beleza:

 

“- Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram, eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instintivamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem um maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho da autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossuras, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda parte (...)”.

 

Foi ali, numa sala do Colu (Colégio Universitário – Colégio Estadual Presidente Costa e Silva), numa prova de vestibular que vivi o inferno do sertão de Guimarães, horas de suores aflitivos numa briga mais flagelada ainda com o espanto daquelas palavras; aquela fala penetrando fundo na minha alma, como uma bala certeira abrindo clareira, vereda dentro da minha ignorância ávida de entendimento; labutei com aquele sertão para responder dez capciosas questões (discursivas. Ufa!). Na mais profunda escuridão, li, reli e quantas vezes mais não lembro, e me deixei guiar por Riobaldo, que foi entrando em mim como uma revelação, o sertão está em toda parte, toda parte, parte... E foi abrindo portas e mais portas, e eu vislumbrando clarões, sentindo uma aragem, vendo umas paisagens e também uma secura... O sertão está dentro de mim. O sertão está dentro do homem. O sertão está no mundo... O sertão universal. E aquele interlocutor invisível, o que ria certas risadas? O mesmo que vejo lá, no qual eu também me transformo, na varanda eterna e encantada de Riobaldo – que ouve as histórias e se delicia, e deve também desentranhar o barro de suas funduras e rachaduras, da vida que foi, da vida que é e da que nem sabe se será; o mesmo interlocutor que está em mim desde o dia daquela primeira vez, a prova de fogo, o batismo sacramentando para uma vida toda essa devoção às palavras de Guimarães e às inquietações do range rede de Riobaldo.

E foi de Guimarães uma frase que colhi como uma rosa rara (vermelho-sangue-vida-dores) no jardim dessas delícias secretas (e sofridas, ara!) e que depositei como uma oração que acompanhou a minha mãe à sepultura – que também me espera –, e que me consola: “As pessoas não morrem, elas ficam encantadas”. E é assim, rindo certas risadas, mergulhando em certas funduras – já escavando a lama dessa eternidade de rio –, diante da grandeza e da beleza de Grande Sertão: Veredas, que me deixo levar pelo encanto da narração de Riobaldo que brota de dentro de um mundo intuído (o Eu lírico, solitário, imortal, profundo!), laboriosa e genialmente construído por Guimarães, principiando (sem me esquecer de que no princípio era o verbo e que o verbo era Deus) dentro da gente uma construção de sensibilidades.

E Riobaldo transcende, em qualquer tempo ou espaço, fronteira física ou imaginária, no essencial do homem – as inquietações que sobressaem e seduzem em qualquer língua –, mesmo que dentro de um livro, uma varanda de horizonte sem fim dentro e fora de 568 páginas (19ª edição/Nova Fronteira), a travessia feita com graça, Rosa, e mais que arte, um fôlego, um sopro, como Deus movendo a face das águas, a cantiga do vento nos buritizais de dentro, e Guimarães as nossas almas na fala do sertão que está em toda parte, toda parte, parte... Aqui, dentro de nós! E resta a (eterna) varanda lírica, onde só deita na rede quem mói no asp’ro do sofrido, mas abre as janelas do pensamento e da emoção à aventura da criação, a vida no encantado da fantasia que ajuda a compreender a nossa trajetória no sertão do agorinha mesmo e do sempre.

January 19

A flor da pedra

 
 
 
Flor na lápide/José Afonso Viana
 
 
 

Bem-me-quer

O querer aflito das pétalas

Ao contrário das voltas

Do meu redemoinho

Palavras palpitam na nudez

Da tua boca de mil cavernas

Em que me perdi e ainda rastejo

Réptil a procura de fendas

Onde brotas medrosa

Onde extingo

A palidez dos dias breves

Mal-me-queres

Se mal me olhas

Varando por dentro tempestades

Dessas de fazer tremer a razão sóbria

De um copo d’água

As tempestades estão aqui

Na palma da minha mão e são tuas

Noites! Ah, as noites que não te conto

Dessas distâncias palmilhadas

De muro e partidas

E exílios

As espirais da pedra e do sono

Os abismos tecidos com palavras

No fosso dos silêncios

Na fissura das esperas

No desamparo das ausências

Essa coragem sozinha e inútil

Às vezes ternura

Às vezes fundura

Às vezes nada

Um sopro na escuridão

A triturar a flor de todos os enganos.

January 05

Falando sobre Amiga, eu te conheço de outras paragens

 

Citação

Amiga, eu te conheço de outras paragens
 Amiga...
 
... eu te conheço de outras paragens
e por algum motivo que Deus apenas pode explicar
enxergo teu coração
com a pele do sentimento...
sem olhos
 
... e assim, por já ter vivido esse solitário
instante que não passa: misto de dor,
saudade e recusa diária do esquecimento
te compreendo...
Ah eu compreendo!
 
... somos irmãs nesta dor, que quase nunca me permito
Esta que estoura como bolhas ferindo as mãos
num dia dois de novembro, dia
dos vivos, se lembrarem dos mortos
 
... mas quem afinal está vivo?
e quem será que morreu?
Se pra nós eles estão aqui todos os dias...
nos gestos e nas palavras
nas marcas que imprimiram nas nossas vidas
e jeitos de pensar, de amar, de acreditar,
de recusar...
 
...dor de saudade do passarinho... que foi pousar noutro
lugar
dor que assoma os olhos como se fosse sangue...
Graças à Deus que é lágrima,
líquida, transparente... que mais não pode
produzir o coração...
 
Amiga, eu te compreendo...
e te abraço em silêncio, mesmo à distância.
Nós pelo menos podemos escrever coisas
e deixar aqui... no ar!
 
 
 
Roberta
em 1/11
para minha querida amiga Cida Almeida
 
 
January 03

As promessas de todos os começos

 

Foto: Cida Almeida

 

Todo começo tem lá as suas promessas. Uma levada de sonho e desejos, talvez ilusão ou franco desespero, mania que a gente tem de se agarrar a alguma tábua de salvação, ou nem isso, apenas a busca de um ponto cego de apoio. E como todo começo tem lá às suas promessas e pensando na mágica matemática do número sete, já pintando o sete de 2007, não resisto e vou com fôlego ao protocolo de intenções para este ano que se inicia.

Pensei nas listas. Mas melhor mesmo é não cometê-las. Nada daquelas prometidas dietas, exercícios físicos, viagens por roteiros mirabolantes, enfim, desejos que se tem à vista de um ano novo para na fatia dos doze surrados meses que se seguem nadar, nadar e morrer na praia desse ingrato crediário de nossas volúveis vontades. É que na maioria das vezes a gente quer ir para um lado, e a vida torce pelo outro. E lá vamos, porque atrás vem gente e de esperar morreu um bobo.

Portanto, começo, livre e solta da tirania das promessas que sei que não vou cumprir. E ainda mais se pactuadas assim, no ímpeto de virar folhinha, como se o gesto nos redimisse do que se passou no ano que passou. Melhor mesmo é pensar no formato guarda-chuva para esse protocolo de intenções, desses bem genéricos, passível de abrigar os nossos mais disparatados desejos. Pois bem: não são promessas, apenas protocolo de intenções.

Bem, como já levei uma vida sem conseguir me organizar, principalmente a incômoda papelada, fica apenas na intenção colocar só um pouquinho de ordem ao caos: pilhas de revistas que sei que não vou reler e, a bem da verdade, até esqueci os interesses que me levaram a colecioná-las; uma montanha de papéis sem serventia, mas toda vez que tento jogar fora empaco naquele pressentimento doentio de que pode ser importante guardar aquilo por algum motivo futuro, então, vão ficando; as memórias encaixotadas, melhor mesmo se as tivesse esquartejado sem piedade alguma, no estilo do melhor açougueiro, e atirado-as ao vento.

E aquelas pastas, de todas as cores (onde está a lógica, o método? Socorra-me Descartes!), recheadas de documentos, a maioria contas pagas e caducas, mas ali, resistentes à todas as faxinas. E essa só Freud explica: todos os livros didáticos, cadernos e provas desde a 5ª série ginasial – sei que nem mais é essa a nomenclatura – até à Universidade, e foram duas faculdades! Meu Deus, que absurdo, quinze anos de papelada fazendo a delícia das traças em caixas que nunca mais tive a coragem (ou insensatez) de abrir... O quesito papel quase-morto sei que é um incômodo considerável. Portanto, vou tentar diminuir o volume e me livrar desse fardo visual na moldura de 2007.

Outro quesito, leituras, que têm mais a ver com o jardim das delícias. E nesse item estou como diria o Odorico Paraguassu (personagem de O Bem Amado, de Dias Gomes, interpretado pelo saudoso Paulo Gracindo), com a alma lavada e enxaguada no contentamento. Em matéria de leitura despachei 2006 com a contabilidade no azul. Reli compenetradamente, no range rede, Grande Sertão: Veredas. Segui o itinerário da Pasárgada de Bandeira e ali reencontrei aquela poesia arrebatadora de lirismos essenciais, as confissões sussurradas do seu processo criativo. E também um despertar compulsivo pela poesia e prosa de Adélia, que tive o privilégio de abraçar em 2006, e outras fúrias de beleza verbal, como o feitiço das palavras de Elisa Lucinda e tantos outros e outras. E tome leitura diária, até doer a vista! Um coquetel saboroso. E tome também filosofia, psicologia, crônicas, ensaios, biografia, teatro, cartas...

E o melhor de tudo: todos os títulos estavam na minha estante, perdidos de mim, e resgatados com um espanto de novidade absoluta. Muitos até havia esquecido que tinha e corria o risco de comprar novamente. E aproveitei e já dei aquela pseudo-organizada, ou melhor, embaralhei um pouco mais a falta de lógica e montei uma prateleira dos que serão lidos em 2007. Antes mesmo da virada do ano já devorava páginas da correspondência de Mário de Andrade para Manuel Bandeira (Cartas a Manuel Bandeira, com prefácio e notas do próprio Bandeira) e para Portinari (Portinari, Amico Mio), além do ensaio Desenveredando Rosa, de Kathrin Rosenfield, que ganhei de presente no natal. Mais uma semana e coloco ponto final nestas três interessantes e instigantes leituras, já ávida de começar outras.

Sei que vou passar um tempão este ano correndo atrás de Mário de Andrade. E como uma delícia puxa outra, nestes primeiros dias de janeiro vou visitar sebos, as esquecidas lojas de livros usados. Sobre aquela prateleira especialmente reservada para o banquete de letrinhas de 2007, tem de tudo um pouco, de Freud à visão de mundo de Einstein, passando por Dante, Buñuel, Drummond, mais Adélia, Bandeira e Elisa Lucinda, Guimarães Rosa, José J. Veiga e muitos outros. Pena que não me adaptei aos óculos de lentes intermediárias - para facilitar a leitura enquanto trabalho no computador - e terei de providenciar novos com a lente só para perto. E como diz a minha oftalmologista, depois dos 40 é assim mesmo, a gente pode até viver sem sexo, mas sem óculos nunca.

Acredito, firmemente, que as minhas intenções de leitura contarão com essa motivação interna bem acesa pelo processo já iniciado de volta, de resgate de identidade, esse momento mais calmo de conviver com o Eu profundo, exercitando a escuta de dentro.

Agora, difícil mesmo é aprumar o corpo, acertar o passo e suavizar as dores da alma para continuar a marcha dos dias, acreditando que a vida é uma coisa linda. E o melhor: é linda mesmo, apesar das dores às vezes desmedidas. 2005, 2006... Anos difíceis, de grandes rupturas, perdas referenciais, fragilidades expostas, humanidade desnuda até o osso... E vem aquele sentimento dantesco, no meio do caminho desta vida; e drummondiano, no meio do caminho tinha uma pedra; e rosiano, viver é muito perigoso; e adeliapradeando, uma borboleta pousada, ou é Deus, ou é nada; e Bandeira tremulando: “Alô iniludível! O meu dia foi bom, pode a noite descer...” Pode nada! É hora de reagir, eu sei. À maneira de Drummond, o que a terra há de comer, mas não como já, se mova ainda para o ofício e a posse.

É isso: viver é esse imbricamento de ação e posse, esta no sentido da entrega, do reconhecimento, do contato. Um contínuo fazer e acontecer, buscando aquele sentido fundo do prazer. O prazer de estar vivo, em movimento, de tocar e ser tocado, de todas as infinitas maneiras. Então, que a gente tenha a percepção do lúdico para pintar e bordar em 2007, mesmo que o avesso não seja perfeito. E daí? Mais que um feliz 2007, que tenhamos um ano bom, com o vigor dos nossos melhores desejos.

January 02

Memória afetiva

 

O país dos horizontes

(Araguari 1944, carro de boi 108)

 

Quanta chuva, poeira fina, lamaçal e inexistência de estrada nos sonhos do meu avô e no pragmatismo sem nome e impotente da minha avó, que o seguia, mas, no fundo dessa falta de rumo e prumo, no esmo da vida feita de vontades desgovernadas, o dirigia com doces mãos de ferro! Quanta metafísica de tudo isso na minha história, na saga tropeira do meu avô tangendo o boi bravo da vida exigindo o futuro andante das gerações.

Quanta ferrugem, meu Deus, rangendo desde o mais profundo tempo das Minas Gerais até à travessia das almas que fecundaram em Goiás! Quanto pasto ruminou os bois carreiros, quanto choro de criança, resmungos e explosões de fúria da minha avó! Quantos silêncios e desatinos do meu avô! Quanto descompasso na toada do canto dos carros e no lombo daqueles bois e daqueles dias que viraram lenda perdida na memória dos que a viveram! Quantas exclamações disfarçando perguntas sem respostas!

E quantas ave-marias, pais-nosso, salve-rainhas, rosários de contas e lágrimas nas rezas de minha avó, e esperanças, mais que sonho, na travessia em definitivo do rio Paranaíba. E mais que um retrato, um estado de alma, Minas virou a imensa e inatingível pátria do meu avô, que jamais reencontrou em suas visitas, porque estava dentro, entranhada nas raízes que ficaram lá atrás, antes daquele momento da poeira fina da estrada grudando como nódoa naquela alma surrada.

Assim, nos habituamos às histórias de meu avô Belisário, em que tudo era pretexto para Minas. Não comprou terras em Goiás, porque terra boa, de cultura, era de Minas. E água? Ah, água boa era a de Minas. Não sei, toda vez que penso em Minas, sinto água brotando de escondidas grotas dentro de mim, gotejando fria, fria, atingindo os ossos da eternidade.

Ainda vejo o meu avô, aquele chapéu bailarino no longe - longe, relampagueante e corajosamente único sobressaindo no meio da boiada, um mito que queimou e queima como brasa o sopro lírico de nossas vidas.

Escuto ainda, como num sonho, as histórias de brabezas e valentias daqueles homens de sertão, de silêncios e de ermos. Escuto, querendo tocá-lo, meu Deus! Os seus passos no corredor do alpendre que adiava a casa beirando uma eternidade; tento seguí-lo, já atravessando a sala, mas paraliso todos os músculos, como fazia quando criança, enquanto ele passava por nós, destemido e temido como um deus. Bastava rascar a garganta, que a gente sumia. E se soltasse aquele temido merda expressando o seu profundo desagrado com as nossas artes, aí tudo estava perdido e só restava mesmo a proteção das barras da saia da minha avó, às voltas de quem ficávamos, até que o dia escorresse e o velho Belisário envolvido com a lida da fazenda nos esquecesse por completo. Ufa! Era um alívio.

E a vida recomeçava sempre igual naqueles cafundós de quintais, beira de rio, o Capivari de perigos insuspeitados, o vasculhar os campos atrás de passarinhos, o embrenhar-se nos brejos, o sonhar acordado com os olhos pregados naquelas neblinas de manhãs. O nevoeiro denso que vinha lá das bandas do rio e chegava até os beirais das janelas nos enchia de um fascínio de ver. Só reencontrei essa sensação das neblinas daquelas manhãs ao ler As Brumas de Avalon. Em pensar que a minha barca de passagem para esse mundo perdido é um simples objeto com a gravação do nome do lugar, a data e um número de inscrição... A imagem da neblina misturada à fumaça esvaindo-se do fogão a lenha e o café no bule eternamente sobre a chapa quente chega a me inebriar.

E havia também aqueles confins de tardes, onde nos erigíamos pequenos gigantes do país dos sonhos, trepados nos bancos areados da sala para compensar a desvantagem da pequena estatura. Debruçados, como anjos suspensos, nos janelões de madeira de lei, intuíamos um mundo depois daquela árvore, daquela curva, pra lá do funilzinho da estrada, já sumindo como um risco... Ali, descobri o país dos horizontes. E nunca, nunca mais perdi a sensação aliviada das janelas.

 

(In) consciente mineiro - Minas não há mais daquele jeito – que tanto reencontrei em Drummond e Guimarães -, com os vestígios das histórias de meu avô, coisas do (in) consciente coletivo mineiro, que anda de trem – de novo a imagem das janelas e das paisagens – e faz da mineirice um estilo de vida. Quantos cortes e recortes, nessa desordem lírica das minhas palavras, que não domino e nem calo.

- Gente, vai lá, arranja um cafezinho. Ouço. E é o meu avô, com o seu jeito mineiro de ser agradável e querendo esticar conversa. Não imaginas com que gosto estalo a língua e pronuncio o seu nome, como se ouvisse os cascos dos bois batendo lentamente na dureza da jornada, que deságua agora aqui, nas minhas palavras comovidas ao tocar com devoção um objeto quase sagrado: a plaqueta vermelha, a tinta intacta, o vazio do relevo das letras, onde dormem um pouco da poeira e da ferrugem do tempo, daquele seu tempo, querendo expansão e expressão: Araguari 1944, carro de boi 108.

Por 62 anos esta placa, do tempo em que os carros de bois eram emplacados, como os automóveis, repousou esquecida em outra fonte de mistério que aguçou a imaginação da minha infância: a caixa de madeira tosca, trancada a cadeado, ao lado da cama do meu avô, onde pensei que guardava grandes tesouros. Ouro, diamante e perigos que eu temia só de espichar para ela o olho, como se o próprio Deus a vigiasse.

Hoje sei que guardava um revólver calibre 38, com cabo de madrepérolas, e também o pavor da minha avó tantas vezes resgatando aquela arma das suas mãos em momentos de entreveros e cabeça quente. O curioso inventário daquelas miudezas: duplicatas de dívidas que ele nunca recebeu; certidões de casamento, nascimento e óbitos; fotografias, em branco e preto, amareladas – algumas com os ditos cujos no caixão, como o costume da época; a binga, o canivete, maços de cigarro que ganhava de presente e até mesmo latas de marmelada – que ele comia devagarzinho, um luxo naqueles tempos.

E o mais precioso segredo guardou aquela caixa: a minha imaginação. Os planos secretos que urdíamos à sombra de frondosas mangueiras para desvendar os mistérios do sistemático e severo avô, em que sua palavra tinha força de lei e traçava destinos, como o da minha tia caçula que se casou com um primo de Minas para satisfazer e honrar única e exclusivamente a vontade Belisarina. Bom, os planos, meu e dos primos, nunca passaram de fugazes intenções momentâneas afugentadas pelo medo do imperador daquele reino. Minha tia nunca foi feliz no casamento, mas cumpriu os ritos de se perpetuar nas gerações, sem perder a nostalgia daquele mundo da casa branca de janelas azuis, que se avistava ao longe como uma promessa de sonho.

A mesma casa que visito agora, com todas as cores e cheiros da alma, dessas de descrever as minúcias insignificantes dos objetos, como o amassado dos dois bules coloridos, um verde e o outro azul, o de café amargo para os homens e o adoçado para as moças. As marcas provocadas pelo fogo nas panelas de ferro, os pratos de esmalte branco lascados, as flores dos copos, a banqueta de cruzeta ao lado do fogão à lenha onde pela nossa física tinha que caber três, depois dos noves fora da briga com a prima que não era a predileta.

E agora seu Belisário? O que faço desse tesouro na fundura da alma? Escavá-lo com palavras é o que me resta, embora quisesse muito outras possibilidades de tocá-lo, fundo, fundo, além dessa placa que materializa Araguari 1994, o carro de boi 108. E isso já é uma outra viagem.

Travessia seca - Dia desses procurei uma tia, a mais velha – queria tanto que minha mãe estivesse aqui! – e tentei acordar-lhe um pouco da memória, com uma conversa e perguntas que ela deve ter estranhado demais. Mas penso que, naqueles seus doces anos de menina, adolescente, não quis reter muita coisa daquela jornada tresloucada da família, já numerosa. E nos espantávamos com o mesmo recente espanto dos outros pela matemática dos 19 filhos que teve minha avó Maria.

Em um carro de boi, puxado por parelhas de oito animais, a família saiu lá das bandas de Araguari e se aventurou com um irmão do meu avô – esse sim, o temido Joaquim Vicente, que já morava aqui e serviu de guia por estradas que estavam mais na intuição e no desejo do que propriamente no traçado –, até chegar a Santa Luzia, hoje Aurilândia, no Oeste Goiano.

A data da viagem foi escolhida para o período das secas, tempo propício para os carreiros que continuavam a desbravar os sertões de Minas e Goiás. Segundo Ana, minha tia, a viagem durou sofridos 23 dias. Não sei, mas fiquei com uma impressão na alma de 33. Tenho uma intuição de memória confusa de ter ouvido narrativas da minha mãe sobre vagas lembranças dessa viagem e de ter falado em 33 dias.

Mas de todo o caso, uma jornada e tanto no passo lento e determinado dos bois tangidos pela perícia de meu avô, um brabo domador de animais, gentes e destinos. Uma lembrança tem a preciosidade de sentinela da memória. Passaram por Trindade em plena festa do Divino Pai Eterno, que acontece no primeiro domingo de julho. Portanto, julho de 1944. O ano em que meu avô emplacou o carro, colocou a canga nos bois, juntou a família e as trouxas e deu início à saga da família.

Sei que foi uma jornada penosa para minha avó e suas crianças, que vivia a sina de um filho na barriga, outro no braço e uma porção de outros em volta, sem contar o gênio forte do meu avô.

Mas nunca foi uma mulher triste e nunca se deixou dominar pelo marido, apenas reinava de um outro modo, deixando-o na ilusão de comando. E quem de fato fazia e acontecia era a força perene e feminina de Maria. Moldou os filhos, as gerações e as nossas almas. E quando sabia que meu avô ia fraquejar, endurecia e pegava no chifre do boi, vencendo até mesmo intricadas barreiras de negócios mal feitos travados no emaranhado desvantajoso dos parentescos. Foi assim, com sua franqueza e habilidade, colocadas em cena na hora certa, que livrou muitas vezes o meu avô de sair de negócios com uma mão na frente e outra atrás, como se dizia antigamente.

Era vaidosa a minha avó, de uma vaidade sadia. Adorava vestidos novos e perfumes e mais que tudo, viajar. Lembro de uma viagem, a gente dentro de uma combi dirigida pelo meu pai, um punhado de tios e primos e minha avó soltar este comentário: “Em pensar que eu sou a responsável por essa gente toda que está aqui!”.

E isso, sim, era felicidade. Não uma felicidade qualquer, dessas fugazes, que a gente compra e depois descarta. Mas uma felicidade feita de alma e presença e certezas de que aquilo era muito bom. Felicidade viajando no sangue, de geração em geração, entranhada na memória afetiva, abrindo as janelas daquele país feito de horizontes. Os que meu avô deve ter vislumbrado nos Gerais ficando para trás e nos chapadões de Goiás virando realidade. Os horizontes que eu toquei do parapeito das janelas daquela casa que veio muito tempo depois de sua linda aventura na travessia seca do Paranaíba.

Lamento muito não ter guardado minuciosamente as suas histórias, como guardaste as preciosas quinquilharias na sua caixa misteriosamente mágica, ainda hoje, mesmo depois de aberta, e desvendado todos os segredos. Que pena, eu não saber os nomes dos bois! Que pena!

Em pensar que também o Brasil é sempre uma surpresa, principalmente nas suas disparidades. Olha que fui buscar nos livros um pouco do Brasil de 1944, coisas do cotidiano, e no mesmo julho em que chegava ao seu destino, tangendo os seus bois carreiros, o Brasil estava mergulhado na Guerra, com os seus pracinhas embarcando em aviões para lutar nos campos da Itália. Enquanto tangia os seus bois pelos sertões de Minas e Goiás, aviões riscavam o céu de um outro Brasil que nunca chegou a conhecer.  Fechei o livro, esqueci o ar de enciclopédia que pretendia para este texto e sinto que o mais importante mesmo era o seu sonho, a sua determinação, e o nome de seus bois.

A bênção, meu avô! Fico aqui, a contemplar imagens do coração e da memória, enquanto os meus dedos passeiam amorosamente pela placa do seu carro de boi, o carro da nossa aventura, da nossa história, com os resíduos da poeira da sua estrada e da ferrugem que vai nos comendo de todo jeito, pelas beiradas e por dentro. Mas que tesouro! E é meu, cuidadosamente desembrulhado agora com palavras.

December 20

Doces mistérios

 

Nada mais doce aos meus ouvidos inquietantes de hoje do que ouvir Esotérico, do Gilberto Gil, na interpretação suave da Kid Abelha Paula Toller. Penso no estado de abandono e nos mistérios (pro) fundos desta vida; penso nos passos indeléveis da longa estrada, a jornada do coração. Penso ou sinto? Sinto ou minto? Minto ou mitifico? Metálica, tilinto audível como o atrito de uma faca de prata na borda do mais fino e puro cristal. Penso e sinto, escavo os anos até o osso dos dias virgens, que quedam antigos na concha das minhas mãos. Diria, ainda hoje, sem medo de ferir a delicadeza dos dias raros, não adianta nem me abandonar, porque mistérios sempre há de pintar por aí (aqui!), validando com uma vida já vivida os versos da canção. Doce, doce, ainda a mesma intuição, nos dias de hoje, a fisgada de um peixe arisco assumindo o risco da linha do anzol, a fome intacta e o banquete surpreendente dos dias que se seguiram. Não, não adianta nem se abandonar, porque mistérios sempre há... Vibro, o som misterioso, apenas ecos nas minhas palavras inquietantes de hoje sacudindo o pó da estrada. Doce, doce, Paula Toller desembrulha nesta manhã de vidraças uns raios de sol de antigas e alegres manãnas na minha língua.

 

Cida Almeida – Goiânia, 20-12-2006 (http://alfazema13.spaces.live.com).

December 18

Use o freio motor

 

Fragmentos de uma pequena história sobre o tempo

 

 

- Pode ser devagar?

- O quê?

- O mundo, ué.

- Ah, sei não. Tô muito ocupada agora. Depois a gente conversa sobre isso.

 

Esse diálogo tatibitateante e descompassado coloca na balança dois pesos (im) ponderáveis: o mundo na velocidade da máquina e o mundo (cada vez mais perdido) na velocidade natural do homem – regulado pelos ciclos da natureza e a biologia. Apesar da máquina, a vida pode ser devagar? Tem gente que acredita que sim, é possível e recomendável ir devagar com tudo. Aqui, por essas terras onde Cabral deu corda no relógio e apressou o passo do índio, Martinho da Vila canta aos quatro ventos que “é devagar, é devagar, é devagar, é devagar, devagarinho...”.  Deita (deliciosamente) na cama e rola na fama de ser devagar. Aliás, o que seria uma qualidade passou a ser um traço pejorativo nada aceitável na personalidade do homem contemporâneo.

Bom, mas essa conversa meio videoclipe, flertando com a histeria de zapeadas com controle remoto ou clicks pelo difuso, confuso e fragmentado mundo da informação instantânea - tudo de tudo, o tempo todo, sem no fundo coisa nenhuma e já atrás de uma outra coisa muito diferente - tem a ver com um fato prosaico, desses que cortou a minha pressa e aguçou a minha curiosidade. Não é que existe um movimento mundial dos devagar quase parando!

E quem trouxe a novidade foi a minha amiga Lucy Elaine – ela lê tudo, mas tudo mesmo que lhe cai às mãos em português. Estava aqui, na maior concentração (frenética), redigindo e plugadíssima ao mundo virtual - clicks e mais clicks - e Elaine solta essa: Achei um movimento pra mim. Ah? O que disse?

Calma e vagarosamente, ela explicou: “Essa matéria aqui da revista (UMA), fala de um movimento mundial, devagar (slow) e eu que sempre pratiquei essa filosofia sem saber! Comigo tudo é devagar...” E disse isso com aquela ponta finíssima de orgulho de quem descobriu que é muito bom viver na contramão, no caso dela, devagar e sempre.

Não resisti. Pedi a revista emprestada, levei pra casa, li a entrevista do canadense Carl Honoré, um ex-estressado que chegou ao absurdo de se interessar por métodos tipo como ler histórias infantis para as crianças em um minuto, mas caiu na real do devagar e deu o pulo do gato. De adepto virou um dos gurus da coisa. É o autor do best-seller Devagar, que não pretendo ler. E o negócio parece que é poderoso e organizado, mas lento, como toda mudança de comportamento e sem contar o furor do inimigo visível, a máquina do mundo moderno. A turma do devagar já fechou, em protesto, até fast food símbolo do paladar apressado e homogêneo da globalização. E tome clube da preguiça espalhado mundo afora.

A coisa cheira a modismos próprios de época, o óbvio ululante do rentável negócio da auto-ajuda. Mas não é que mexeu comigo, que sou estressada de corpo, alma e profissão – embora não pareça. Aí me lembrei da genialidade de Charles Chaplin em Tempos Modernos, o autômato na linha de montagem, o homem engolido pela máquina (um Carlitos sem poesia). O relógio fragmentando mais que o nosso tempo real, o nosso tempo psicológico e a nossa alma.

Passei uma semana encafifada com o tema. E a máquina do pensamento desembrulhando imagens, idéias e outras caraminholas.

O mundo nunca mais foi o mesmo desde que Henri Ford inventou a linha de montagem e os automóveis encurtaram distâncias. Terra, céu, mar, espaço sideral e virtual mediados (e esquadrinhados) por velozes e eficientes máquinas. O relógio e o mundo girando cada vez mais apressados e o homem na roda. Se parar cai (?). E na esteira outras invenções mais apressadas para um mundo cada vez mais instantâneo, por um click ou no máximo dois – seguindo a lógica do sistema.

Enfim, aquele relógio de dentro, o chamado relógio biológico, se não pifou de vez, deve estar muito doente, exigindo reparos e, principalmente, atitude e mudança de comportamento. Por isso, compreensível a desaceleração proposta pelos adeptos do devagar.

Em outras palavras, vamos com calma com o andor porque o santo é de barro. E a gente se esquece disso: que somos o santo de barro. Conheço gente que não tolera final de semana e nem feriado – o tormento é triplicado se for prolongado – porque não sabe relaxar e aproveitar o tempo livre. O corpo vai pra casa, mas a alma fica lá no trabalho, presa em algum canto entre papéis e a invenção de uma urgência que virou vício, doença e desperdício de vida.

Claro que não é fácil ganhar a vida num mundo cada vez mais competitivo e seletivo. Por isso mesmo, saber dosar é essencial. E como dizia minha mãe: vamos temperar a balança. Equilíbrio! Trabalhar, sim. Se for preciso, muito. Mas também relaxar e aproveitar a vida – com todas as pausas e intervalos – e a companhia das pessoas, da família, dos filhos, dos amigos, dos conhecidos e desconhecidos, dos bichos de estimação. Esquecer um pouco o ritmo e o tempo da máquina e se regular pela natureza. Mar, cachoeira, riacho, montanha, mato, jardim, a magia do quintal – confabular com as árvores, as trepadeiras, as flores, a grama, os cheiros-verdes.

Deixar o computador mais tempo desligado e vagabundear pelos livros pode ser um bom começo para reconstruir nosso tempo mental e emocional. Há gente por aí que só lê na tela do computador, no tempo da máquina. Mas eu não abro mão por nada dos meus livros sagrados no meu tempo emocional, com as delícias das anotações e os sublinhados a lápis. Penso que é essencial desacelerar, mesmo que devagar, um pouquinho de cada vez, até chegar naquele limite de pacificação interior em que se é possível ouvir e escutar o próprio coração.

Sei que o bicho que rói o nosso tempo bom pega para todo mundo. Um bom termômetro é o nível de escuta. Fala-se muito e cada vez mais num mundo que está ficando surdo. Ninguém escuta ninguém. Às vezes, a opção que resta para muitos é o divã do analista, grupo de auto-ajuda, o refúgio das religiões ou outros venenos.

Escutar – e não simplesmente ouvir – é um privilégio para regular melhor esse nosso relógio de dentro. Faça o teste do balcão. Simplesmente chegue e formule um pedido, três coisas no máximo, e didaticamente. Ficará surpreso com o nível de escuta do balconista, que no fundo, é a média de escuta de todos nós. Quantas vezes ao dia nós simplesmente não desligamos a nossa escuta? E temos o gestual de uma mímica pronta para fingir escuta. E o que é tudo isso senão estresse, pressa e uma válvula de escape para nos protegermos do excesso do mundo.

Uma vez fiquei envergonhada diante da minha sobrinha, que queria contar uma história com começo, meio e fim. E eu cortei: Ana Beatriz, diga logo o que você quer? Não, madrinha. Você precisa me escutar para entender o que eu quero dizer (?).

Tem dias que a coisa complica e não tem agenda que se encaixe no dia. E não quero, de jeito nenhum, o que muitos proclamam diante de todos os relógios, um dia de 25 horas – só se fosse para as delícias da preguiça. Mas descobri uma fórmula: se esquecer algo é porque não era tão importante assim. Não me martirizo e nem arranco os cabelos por isso. E estamos conversados.

E há um verbo que tenho gostado cada vez mais, por mais perigoso que seja à vida produtiva: procrastinar. Sei dos riscos, pois afinal não tenho a eternidade à minha espera. Mas gosto de cultivar minhas idiossincrasias.

E reivindico, com energia, o meu direito à preguiça. Que o digam, às vezes, os cestos de roupa suja implorando pelo tanque, as pilhas das limpas pelo ferro de passar e a louça esquecida na pia, enquanto eu cismo com as pernas para o ar, no conforto desses pensamentos cheios de curvas e cortes na maciez do sofá. Ou simplesmente, largo tudo e vou passear no quintal, embevecida com a beleza do dia, as plantas renovando a folhagem, as floradas novas e aquelas frutas maduras cheias de novidade das estações.  

Dia desses vou fazer fila com a Elaine para ingressar no movimento dos devagar, mas sem pressa alguma para carimbar carteirinha. Deixa o tempo correr, devagarzinho, devagarzinho, quem sabe eu chego lá, mas tendo curtido ao máximo passar por aqui.

Ah, o mundo pode ser sim, devagar e melhor! E já.

November 06

Um dia de não

Cupido e Psiche - Antonio Casanova 

Não. É o que digo hoje. Assim, sem precisar pensar, dar tempo ao tempo da minha paciência que se esgotou. É não e pronto. Não para essa arrastada agonia de esperar o fim de uma ilusão que me queimou em carne viva. Não para todos esses assombros que me encheram de perplexidade. Não para essa falta que me expõe. Não para o que me dói e corrói. Não para esse tropeçar, sempre, no mesmo buraco. Não para essa neblina espessa que me roubou dias de sol e a promessa de horizontes.

Não. E nunca mais sequer um momento estragado pela visão desse estranho móvel na sala. E nunca mais esses esbarrões e hematomas. Não, com toda minha seriedade destilada em iniludível serenidade... Não, não espero mais, não tolero mais, não sofro mais a mesma perda reinventada todos os dias. Não e abro definitivamente as cortinas, mesmo que os dias além da janela sejam mais sombrios do que esses em que reconheci essa ignorada rachadura.

Não. A minha última chance, a carta que despojadamente coloco na mesa, pronta para tudo ou nada. Mas é não. E no limite da porta, dois gestos. A escolha não é minha. Entre Eros e Psique o que dói é o véu. E pensando em Gonzaguinha: “Eu usei a palavra mais certa/Vê se entende o meu grito de alerta”.

October 25

Grafitado por dentro

 
 

Há sempre um muro

De iniludíveis silêncios

Quando eu digo: Dói.

 

Há sempre uma face

Muda e contraída

Atrás do muro

Mesmo quando não digo:

Dói.

 

Há sempre uma frase

Quebrada e mínima

(Dói)

Onde não sei: o muro.

 

O que dói

Essa fundura.

 

O que dói – o muro

 

(A rachadura)

 

October 17

A memória na janela

Ou como seu perfume mexe comigo

 

Viver é, de certa forma, acumular memórias - o que não significa viver do passado. Nesse contínuo de tempo e espaço, o saboroso trem da vida, de parada obrigatória em estação ignorada, felizmente não tem limite de bagagem. E da mesma forma que a gente se comporta numa viagem, naquele afã de marcar também na alma a beleza do roteiro, a intensidade ou importância dos momentos – para dias de futuro -, até inconscientemente, vamos colecionando os nossos souvenires.

Cartas de amor que, depois de todas as juras, sobressaltos do coração no compasso da espera, transformam-se num patético dossiê de injúrias. E mesmo assim, ali, intocadas no fundo da gaveta, para um dia de reminiscências e de dedos, resistindo a todas as faxinas, uma espécie de materialização de confesso que vivi –, junto com todos os poemas grifados do Neruda e de quebra, os de Mistral. Ainda fresquinhos na ponta da língua da memória, com o gosto de hortelã da bala que ainda sentimos ao ver o papel dobrado em forma de abraço – apertado entre as páginas e o pó do esquecimento –, um arremedo de origami que traz de volta a voz enamorada daquela leitura, inesquecível sim, daquele poema para um amor que não passou da fugaz estação da promessa.

E vamos enchendo o trem da vida de nossas lembrancinhas perdidas. Fotografias no repouso amarelo dos álbuns, sorrisos que se foram e não tivemos o privilégio de vê-los envelhecer em nossa companhia, com todas as linhas e sulcos dos possíveis risos e gargalhadas. Vozes que só raramente ouvimos pelo telefone, com toda a grandeza do nosso afeto, a única ponte tangível para as distâncias e tempos inomináveis. Um vestido que se perdeu de nosso corpo, amorosamente, pendurado no cabide acima de todas as modas. Dentro do guarda roupa, num cantinho escondido da alma, ainda nos desafia com o velho e insuspeito perfume daquela festa!

Existem memórias que estão nas coisas que tocamos e preservamos como sentinelas da memória. Basta passar perto, deter os olhos, tocar de leve, e, desembrulhamos mundos, sensações, sentimentos, dores, prazeres, prantos, cantos e encantos. Nossa preciosa memória palimpsesto, protegida pela cola do tempo para raspagens de leituras nos dias de depois.

Mas existem memórias que percorrem outros caminhos, os dos sentidos e que não tiveram o tempo ou a imprudência de se materializarem em objetos, as quinquilharias abençoadas em momentos de fortes emoções. Lembro-me de ter guardado, anos a fio, uma nota de cinqüenta centavos (imaginem, uma nota de cinqüenta centavos!), não sei em que moeda – eram anos doidos de ciranda financeira e o coração a galopes. Mas a valiosa moeda afetiva, essa sim, eu guardei durante anos pelo complicado prazer de tocar a mesma viagem dos seus dedos naquela nota, as digitais daquele tempo do meu momento de espelho, como um talismã, um tesouro.

Não quero repetir a experiência do gosto de pizza de atum, mas jamais conseguirei apagar da memória emocional a cena e o cheiro, entre aquelas palpitações todas, a pureza da minha fome e todas as palavras escorridas de um amor resvalando por entre os dedos. Por isso, é uma opção que abomino nos cardápios, uma vingançazinha besta do meu paladar.

Outras memórias profundas vêm à tona meio que a esmo. Escapam de seus esconderijos secretos no mais escondido da gente e sobem as paredes escorregadias e ardilosas dos sentidos. E vêm se esgueirando e agarrando fios tênues, desses quase por um triz se revelando e se perdendo novamente. E nos tocam e nos comovem até às lagrimas, às vezes, sem o amparo de uma imagem clara, definida, de algo ou de alguém. Há muitos anos uma dessas memórias irrompeu de dentro de um frasco de xampu. Meu Deus, que cheiro profundo, de onde, de quem, quando? Nunca me senti tão frágil e desprotegida. Chorei uma tarde inteira, hipnotizada pela suspeita de uma lembrança. Atirei o frasco de xampu na lixeira, sem ler o rótulo. Nunca mais esqueci esse reencontro volátil.

E o que dizer das leituras que se incorporam à nossa memória afetiva, a ponto de se converterem em perfeita tradução, em recorte absoluto para um tempo profundo. Sou capaz de fazer uma viagem aos matizes visuais, sonoros e emocionais da década de 80 só de tocar, de passar os dedos na capa de um best-seller da década, O Perfume, de Patrick Süskind. As palavras e as emoções exacerbadas pelo olfato. Com o livro, abri as narinas e inspirei mais que o universo de Jean-Baptiste Grenouille. Entremeada àquela leitura meio alucinada, junto com as palavras, as imagens, a febre emocional de quem caiu na armadilha daquela teia urdida habilmente por Süskind – nunca mais li nada dele, embora ele tenha escrito muito -, guardei sensações e cheiros outros de realidades antes não percebidas no cotidiano dos passos, da vida seguindo em frente. Tudo misturado na alquimia daquela leitura contando novidades para a minha alma de janela aberta. Coisas de dentro de mim, de fora, da realidade, do irreal, do apenas imaginado ou intuído, da vida, das pessoas, do mundo que pulsava ainda meio ilha – embora pensássemos que vivíamos na aldeia global. Quanta ilusão! – e do meu miúdo território no bom daquela década, os anos de novidades da juventude.

Mas nos entremeios da memória o perfume me encharca e tem também nomes próprios: Paulo, Raimunda, Marliva. Uma ciranda de espelhos. É que o extrato é concentrado e basta uma menção, um leve impulso que seja para entornar o frasco. E olha que hoje é só um livro esquecido na estante e que despejou, magicamente, todo o seu encanto dentro de mim.

Que viagem! Em pensar que o cheiro mais fresco (hummm!), que dor, que pétala, que flor! Esse ainda vem de manhãs etéreas e uma brisa voluptuosa na curva do ombro, a transpiração, o toque, a passagem secreta para as delícias do paraíso daquelas vontades que desvendei ali, no princípio do mundo, intuitivamente, ainda sem verbo, enquanto contemplava a inquietude do seu silêncio. Colhi gotas do seu perfume no balanço descuidado dos seus cabelos. E colhi também aquelas manhãs, aquela esperança de vir a ser e aqueles olhos. Gotas do seu perfume, misturadas à avidez daqueles anos... Mas essa poção mágica só conto pra minhas narinas, em certas manhãs, que cismo em debruçar na janela.

Cida Almeida – Goiânia, 17-10-2006. (http://alfazema13.spaces.live.com).

October 05

Meu chapéu voador

 

 

Fotos: Cida Almeida

 

Irresistível! E só descobri isto recentemente. Minha alma faz mesuras, galanteios ao chapéu. O analista com certeza explicaria. Mas como nunca cheguei perto de um divã, deixa meu chapéu fora dessa. Sob essa sedução, com certeza, moram meus afetos, delicadezas, fantasias, utopias e fantasmas. Na primeira foto, acho que consegui um efeito inesperado com um velho chapéu de palha que achei ao léu na fazenda da nossa comadre Nicélia. Não resisti e dá-lhe fotos. O segundo, charmosíssimo, tem muita história pra contar. Mas outra hora. Por enquanto, ficam estas imagens solitárias dos meus chapéus, guardando minhas palavras.

Cida Almeida - Goiânia, 5/10/2006 (http://alfazema13.spaces.live.com). 

October 04

Apesar de setembro ter ido embora

Ao som de Gracias a la Vida 

Setembro deixou no ar uma promessa generosa de chuva, apagando um pouco da secura que já me trincava por dentro e fundo. E dobrou saltitante a folhinha em cima da minha mesa, nesse estranho e arrastado bonde de 2006, pontilhando de verde e de cheiros o meu jardim. Setembro, jardim, jasmim-manga florido à espera das lagartas exuberantes e famintas, a acidez desejada dos cajus contando novidades para a minha língua, amoras aveludando o canto dos sabiás e a ninhada dos titocos da Mel e do Lorde Fedegoso, uma lição natural e fundamental de que a vida é esse infindável e cíclico crescer e multiplicar, abençoada agora por meus olhos e carinhos nos sete cachorrinhos que tornam os dias aqui em casa diferentes.   

Setembro sulcou mais um ano no meu DNA – a tal data de nascimento antiga. E as dores do crescimento vão ficando cada vez mais robustas, exigindo mais atitude e transcendência, um olhar mais amoroso para o eu, o outro e o mundo, o que equivale a aprender a perdoar-se mais e seguir em frente, na medida do possível dos dias.

As perdas, essas são inevitáveis, o que faz aumentar a nossa coleção de apesar de. Apesar de você ter morrido, tenho que continuar vivendo. Apesar de doer demais a sua ausência em tudo que toco, vejo e sinto, continuar sorrindo, indo a supermercado, festinhas de aniversário, cinema, almoços em família, tudo que não encobre a sua falta – antes, me coloca diante do abismo dela. Apesar de ter me magoado no amor, não me esconder dessa face luminosa da vida. Apesar de ter perdido o rumo, não esquecer que a alma é Sul e que é assim mesmo, sempre mais fundo. Apesar da espessa névoa dos dias difíceis – que sabíamos, chegaria com os seus inevitáveis cortes -, continuar com a esperança ancestral de horizontes.  Penso, ludicamente, em fazer a minha lista de APESAR DE, só para forçar a consciência de que o prumo é meu.

Setembro, mais um no calendário, com água de chuva para amenizar a secura de dentro e de fora das nossas paisagens. Setembro, o que já era, mas fez magnificamente o seu trabalho, antes de pular a cerca do meu quintal. E apenas hoje me dei conta, em mais uma de suas luminescências, acordando a dormência das sementes, flores e frutos das minhas palavras. Tinha visto sim, apenas não me dei conta. Mas hoje cajus, jasmim-manga, amoras e um verde novinho em folha fazendo cócegas macias nos meus pés vieram me contar essas belezuras. Agradeço, infinitamente, com os olhos, enquanto sigo o movimento dos sete cachorrinhos às turras com a Mel, exausta de amamentar. Quase saltitante por dentro, numa vontade de imitar setembro pulando a cerca dessa tristeza, vou colocar o velho vinil no quase aposentado toca-disco (olha o tal DNA aí!) e deixar a voz de Elis Regina dar gracias a la vida, nos versos plenos de horizontes de Violeta Parra.

Cida Almeida - Goiânia, 4-10-2006 (http://alfazema13.spaces.live.com)

 

 

 

 

September 26

Pode ser para sempre

Foto: Léo Iran

A breve eternidade do meu coração

 

Para sempre

É um tempo inteiro no coração

Com o vigor do tambor

Do primeiro trovão

 

Para sempre

É um ciclo completo no coração

A batida vigorosa do trovão

No primeiro tambor

As mãos os passos os pássaros

 

Para sempre

É a fagulha da primeira fogueira

No tempo perfeito do coração

No vigor do tambor

O trovão

 

Para sempre

Na fogueira das palavras

O trovão

O tambor

O coração

 

Para sempre

As pegadas no infinito

No sopro do meu coração

 

Para sempre

O sabor do fruto da colheita de nossas brevidades.

 

Cida Almeida – Goiânia, 26-09-2006 (http://alfazema13.spaces.live.com).

 

 
by 
by 
by 
by 
by 
by 
by 
by 
by 
Photo 1 of 4